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Na defunta RDA, a polícia política conhecida como Stasi erigiu uma das maiores e mais eficazes redes de espionagem da História, dirigida principalmente contra a própria população

Nunca ninguém pôde acusar Wolfgang Schnur de falta de empenho na defesa dos seus clientes. Durante anos, o advogado abraçou os casos mais bicudos da Alemanha de Leste: a causa dos críticos do regime comunista que enchiam as prisões da RDA. Homem ligado às estruturas e à hierarquia da Igreja Evangélica era, no final da década de 1980, o advogado de confiança daquela instituição religiosa, a mais numerosa do país.

Representou dissidentes, artistas, ativistas dos direitos humanos e objetores de consciência. No final de Outubro de 1989, poucos dias antes da queda do Muro de Berlim, foi cofundador e presidente do partido Demokratischer Aufbruch (Saída Democrática; DA). Entre esse ano e o seguinte participou na Mesa Redonda Central, que juntava figuras reformistas do regime e membros da oposição. Em Março de 1990 forjou uma aliança com os democratas-cristãos para concorrer às primeiras eleições livres da Alemanha de Leste. Ao longo de muitos meses, e antes de se poder prever o fim abrupto do regime, falou-se dele como o futuro chefe do governo.

Mais do que um causídico, Schnur era também o companheiro que rezava ardentemente com os seus constituintes nas horas de aflição. Certa vez, em Janeiro de 1988, irrompeu em lágrimas ao lado do cantautor Stephan Krawczyk, que se encontrava em prisão preventiva, ao dar-lhe a notícia de que a mulher dele, a atriz Freya Klier, também havia sido presa. Mas as lágrimas nem todo o seu afã ativista o impediram de se encontrar regularmente com um oficial da polícia política – o «seu» oficial – a quem comunicava o teor das conversas e das cartas que os clientes lhe pediam para levar para o exterior.

A revelação de que Schnur era o bufo com os nomes de código «Torsten» e «Dr. Ralf Schirmer» rebentou a dias das eleições e não só chocou todo o meio oposicionista alemão oriental como acabou com a sua carreira política, até aí apadrinhada pelo então chanceler alemão federal Helmut Kohl. Ninguém queria acreditar que o advogado trabalhava desde 1965 como inoffizieller Mitarbeiter (colaborador não oficial, IM) do Ministério para a Segurança do Estado (Ministerium für Staatssicherheit, MfS, também conhecido apenas como Staatssicherheit ou Stasi, para simplificar).

A «CASA DOS MIL OLHOS», UMA METÁSTASE BUROCRÁTICA

Stasi aparelho de escuta montada em livro de oração

A Igreja Evangélica foi um dos principais alvos da Stasi. Neste livro de canto litúrgico foi montada uma escuta.

Casos como o de Schnur sucederam-se em catadupa naquela época. Quase todos os dias surgiam com contornos de escândalo novas revelações, reais e supostas, dando conta do envolvimento de figuras proeminentes da sociedade alemã oriental com a polícia política. E nem sempre os nomes vindos à baila eram os mais óbvios. «Não foi por acaso que, pouco depois, surgiu a exigência de se esclarecerem as atividades dos recém-eleitos deputados relacionadas com o Ministério para a Segurança do Estado», comenta o investigador Jens Gieske, no livro Der Mielke-Konzern Geschichte der Stasi 1945-1990, uma espécie de manual de referência para a história da polícia política alemã oriental.

Pouco do que se passava no país escapava aos olhos e ouvidos da organização, a cujo quartel-general, situado na Normannenstrasse, no bairro berlinense de Lichtenberg. As pessoas chamavam «a casa dos mil olhos» a esse sinistro bloco de betão castanho (entretanto convertido em museu e arquivo) e em cujo interior ainda se respira atmosfera gélida ao percorrerem-se os corredores de carpetes vermelhas e com bustos de Lenine, Marx e Félix Dzerjinski, fundador da Tcheca, o serviço de segurança da URSS que, mais tarde daria origem ao KGB. Aliás, Dzerjinski foi sempre a grande inspiração dos oficiais da Stasi. Chefe que se prezasse tinha uma fotografia dele a ornamentar as paredes do seu gabinete.

A partir daquele local, a Stasi zelou pela segurança das fronteiras da República, vigiou os passos de diplomatas, homens de negócios e jornalistas estrangeiros. Tudo ficava registado num complexo sistema de arquivo.

A SOMBRA DO CHANCELER
A nata da Stasi encontrava-se na HVA, o departamento de espionagem, um dos melhores serviços de informações do mundo.
Dirigido entre 1952 e 1986 porMarkus Wolf, a espionagem da RDA logrou umdosmaisespectaulares golpes da Guerra Fria ao plantar um agente seu no gabinete do então chanceler da Alemanha Federal,Willy Brandt, que teve de se demitir, em 1974, na sequência deste escândalo. O protagonista do caso foi GünterGuillaume, que os serviços daRDAintroduziramnaRFA na década de 50, e que ao longo dos anos foi ascendendo na hierarquia do Partido Social-Democrata, ao ponto de se ter tornado chefe de gabinete do chanceler.

Willy_Brandt_Guillaume

Willy Brandt e Günter Guillaume

Wolf confessou nas suas memórias, Spionagechef im Geheimen Krieg, que nunca pensara colocar um agente tão perto do chefe de governo da Alemanha capitalista: «Nunca ousamos esperar tal, nem no mais ousado dos sonhos».
Guillaume atuava com a mulher, Christel, que também subiu na hierarquia do SPD. O casal fora enviado para a RFA no início da década de 50, juntamente com dezenas de outros jovens agentes, com a missão de se infiltrarem na ala direita do SPD e aí fazerem amigos.

Dali também se dirigiu um dos serviços de espionagem mais eficientes da Guerra Fria, liderado por Markus Wolf, que inspirou o escritor John Le Carré. Mas seria no seu core business, a vigilância do próprio povo, que a polícia secreta alemã oriental atingiria níveis de excelência. O que só foi possível porque o serviço secreto da «Nova Alemanha» sempre se orientou pelos princípios da velha Prússia minúcia, rigor, ordem e uma certa obsessão pelo pormenor. Ao longo de quatro décadas, a organização funcionou como uma espécie de exército virado para dentro, como o instrumento que permitiu ao regime exercer um controlo férreo sobre a população.

Era «uma metástase burocrática» que alastrou por toda a sociedade, nas palavras de Anna Funder, autora da perturbadora reportagem literária Stasiland (editada em português pela Civilização Editora). E esse exército era numeroso.

Entre 1950 e 1989, a Stasi empregou um total de 274 mil pessoas. No ano em que o muro de Berlim ruiu (1989), os funcionários a tempo inteiro que vestiam a farda cinzenta do Ministério para a Segurança do Estado chegavam aos 91 015.

Era, porém, nos colaboradores informais da Stasi como Wolfgang Schnur que o regime tinha «a principal arma contra o inimigo», uma rede que se infiltrava em todas as áreas da sociedade e todos os aspetos da vida dos cidadãos.

Quando o Muro de Berlim caiu, havia 173 081 bufos (85% a 90% homens, segundo Gieske). Só estes IM representavam, de acordo com John O. Koehler, no seu livro Stasi: the untold story of the East German secret police, 2,5% da população entre os 18 e os 60 anos.

Depurados os números de fantasias estatísticas, e incluindo no cálculo apenas os funcionários do quadro, percebe-se que o esforço controlador da Stasi suplantava, e em muito, a dimensão de estruturas como a Gestapo nazi ou o KGB soviético.

Ou seja, na RDA havia, em 1989, mais de 91 mil agentes para 17 milhões de habitantes, uma proporção de 1 para cada 187 habitantes, ao passo que a Gestapo cobriu com 40 mil agentes uma população de 80 milhões (1 para 2000) e o KGB contava no seu quadro com 480 mil agentes para 280 milhões de habitantes (1 para 583).

COMO UMA MANCHA

Havia sempre um agente nas maiores empresas, outro em cada bloco de apartamentos. Todas as áreas da vida social estavam infiltradas, dos liceus às fábricas, das igrejas ao desporto (um exemplo: de 72 jogadores do Dínamo de Dresden, 18 estavam inscritos no ministério com o estatuto de colaboradores não oficiais).

Como era na Igreja Evangélica e em seu redor que se organizava a oposição ao regime, inúmeros agentes da Stasi receberam formação em Teologia para poderem infiltrar-se na instituição. Um deles era o teólogo Heinrich Fink, vice-reitor da Universidade de Humbold, em Berlim, que trabalhava para a Stasi desde 1968.

O recrutamento fazia-se muitas vezes diretamente nos seminários, nas universidades junto dos estudantes, na tropa junto dos soldados do serviço militar obrigatório. O bufo podia ser qualquer um: o médico, o ator, o escritor, o jornalista, o empregado do bar de hotel, o artista, o advogado, o arquiteto.

A Stasi alastrara como uma mancha. Estava em todo o lado. Via e ouvia tudo. E teve 40 anos para aperfeiçoar um estado policial como George Orwell nunca sonhou nos seus piores pesadelos.

A sociedade da Alemanha Oriental era desconfiada. A desconfiança tornou-se o fundamento da existência social, das relações entre as pessoas. Todos desconfiavam de todos.

A Stasi estava por todo o lado. Ainda assim, como nota Gieske, não seria a RDA (como não o tinham o foram a Alemanha nazi ou a Rússia estalinista) a confirmar o diagnóstico sombrio de Hannah Arendt acerca da completa atomização da sociedade sob um regime totalitário. A célula familiar revelou-se, também aqui, resistente às tentativas de infiltração. Casos como os da oposicionista Vera Wollenberger, cujo marido Knud (nome de código «Donald») a espiou intensamente, foram raros.

A missão expressa da Stasi era ser o escudo e a espada do Partido Socialista Unificado (SED). E a organização levava essa missão a peito. Não se ficava por controlar e contrariar as aspirações dos oposicionistas. Registados ficavam também hábitos sociais, como o consumo de álcool, dívidas, preferências sexuais, deslizes matrimoniais ou seja, todo o tipo de material que pudesse de alguma forma servir para fazer chantagem. Era, aliás, assim que a Stasi conseguia muitas vezes a colaboração das pessoas. Destruía casamentos, atrapalhava e acabava com carreiras, mandava para a prisão, torturava. Às vezes bastava a mais pequena piada.

A realidade ultrapassava em grande medida a ficção. Não se pense que são exageradas as narrativas dos filmes A Vida dos Outros (de Florian Henckel von Donnersmarck, 2006) e Bárbara (de Christian Petzold, 2012).

O grau de pormenor de muitos relatórios sobre pessoas sob vigilância apertada (o que incluía escutas telefónicas, violação de correspondência e observação, entre muitos outros métodos) chega a ser ridículo. A vida do «objecto» (gíria da Stasi) era descrita de forma sistemática e com precisão, minuto a minuto, e incluía até as idas à casa de banho e as saídas de casa para passear o cão. Em 40 anos de atividade, a «Firma» (como lhe chamavam os seus funcionários) produziu uma quantidade de ficheiros equivalente a todo o legado documental depositado nos arquivos históricos alemães desde a Idade Média. Arquivadores em número suficiente para encher 180 quilómetros de prateleiras. «Como a Gestapo nazi, a Stasi foi o lado sinistro da deutsche Gründlichkeit (minúcia alemã)», comenta Koehler.

A RDA foi o mais perfeito estado policial de todos os tempos, de acordo com alguns estudiosos. Segundo os próprios responsáveis políticos da Alemanha de Leste, o poder político deixou de controlar o monstro que criara.

O ESTADO DENTRO DO ESTADO

«Na verdade, o Ministério para a Segurança do Estado evoluiu crescentemente para um Estado dentro do Estado, isolado do exterior, que chegou mesmo a controlar membros do Partido», justificou Egon Krenz, que em 1989 substituiu Erich Honecker na liderança do Governo da RDA e do SED. Tentava, assim, numa reunião da Mesa Redonda Central, ilibar-se a si e aos comunistas dos abusos da Stasi.

Até Honecker, que governou a RDA de 1971 a 1989 e acumulou tudo o que é cargo cimeiro de poder, pegou na deixa do seu sucessor para dizer que ele próprio, enquanto presidente do Conselho Nacional de Defesa, praticamente não tivera qualquer perspetiva sobre a vida interna do aparelho e que confiara nos esclarecimentos do todo-poderoso chefe da secreta, o general Erich Mielke. Este ter-lhe-á sonegado informação essencial como o número de funcionários do quadro e os colaboradores informais.

«O desenvolvimento de um sistema (…) tão abrangente está em contradição com as resoluções do Politbüro e do Conselho Nacional de Segurança», disse. E acrescentou que tal só se explica por se ter tentado «criar um Estado dentro do Estado, à semelhança da Tcheka».

Já detido, Mielke não deixaria os dois camaradas sem resposta. Em 1992, numa entrevista à revista Der Spiegel, garantia que «o MfS não foi um Estado dentro do Estado». E explicou: «A imagem do Escudo e da Espada do Partido não é um mero desejo. O MfS submeteu-se, até ao fim, ao controlo do Partido. Tínhamos de prestar contas ao secretário-geral, ao Conselho Nacional de Defesa e ao Conselho de Ministros [ou seja, a Honecker].»

Os acontecimentos do Outono de 1989 precipitaram a queda do regime e fizeram estremecer todo o sistema, das cúpulas ao mais pequeno informador, como era o caso de Wolfgang Schnur, que chorou ao lado de Krawczyk para logo a seguir o denunciar (a ele e à mulher) na Stasi, por suspeitar de o casal ter ligações à televisão alemã ocidental e de esconder um manuscrito no sótão com críticas à situação na RDA. O casal ficou surpreendido com a revelação, mas era na surpresa que estava uma das forças da Stasi, que existia dissimulada, mesmo no mais amigo e confidente dos advogados.

(Texto originalmente publicado na revista VISÃO HISTÓRIA, nº 6, 1 de outubro de 2009; reeditado em novembro de 2014)