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Os fluxos de dinheiro entre os dois países intensificam-se no ano seguinte. A ata do Conselho Geral do Banco de Portugal de 28 de fevereiro de 1939 revela como o vice-governador Álvaro Pedro de Souza deu conhecimento aos restantes administradores das pretensões de «um emissário do governador do Banco de Espanha de Burgos», que lhe solicitara um empréstimo de 480 mil libras esterlinas, em libras ou escudos, dando como penhor cerca de 600 barras de ouro de cinco quilos. Esses «3.200 quilos de oiro bruto» tornavam, segundo o vice-governador, a operação bastante lucrativa. Além de que «a garantia oferecida [ouro] é a melhor de todas as garantias». O empréstimo foi aprovado por unanimidade.

Condecorados por Franco
Um dos desfechos da relação criada entre os dois regimes durante a guerra civil ocorreu em 1961, quando Manuel de Mello e Manuel Espírito Santo Silva, sucessores de Alfredo da Silva e de Ricardo Espírito Santo, foram agraciados, na embaixada espanhola em Lisboa, com a Grã-Cruz de Isabel a Católica. A família Mello vê na comenda um agradecimento, tardio, pelo apoio de Alfredo da Silva à causa nacionalista de Franco. No círculo dos Espírito Santo, o entendimento não é esse: «Nada existe no nosso arquivo que permita tirar essa conclusão», garantiu à Visão História o responsável pelo Arquivo Histórico do BES, Carlos Alberto Damas.

Anteriormente, após a celebração do primeiro tratado comercial entre Portugal e o Governo de Burgos, a 15 de maio de 1937, fora criada uma conta de compensação no Banco de Portugal, em nome do «Banco de Espanha em Burgos», a fim de efetuar as liquidações resultantes das transações comerciais.

É também em 1937 que se concretiza aquela que poderá ter sido a maior ajuda financeira nacional ao regime franquista. A partir de Lisboa, o Banco Espírito Santo (BES) transfere quantias significativas para 37 personalidades do Governo de Burgos, incluindo cônsules-gerais, representantes de legações, encarregados da Junta de Defesa Nacional e outros representantes do «Estado espanhol», como se pode ler em La financiación de la guerra civil española, de José Ángel Sánchez Asiaín (Critica, 2012).

No Arquivo Histórico do BES estão guardadas as cartas enviadas pelo banco, entre 26 e 29 de junho, aos destinatários dos empréstimos, assim como os respetivos recibos trazidos na volta do correio.

Contudo, o BES de Ricardo Espírito Santo, íntimo de Salazar, não terá agido de forma isolada. O remetente das quantias destinadas aos fiéis do Governo de Burgos era o Midland Bank inglês, habitual parceiro de negócios do BES para toda a Inglaterra. Ao fazer as transferências, o BES avançava fundos próprios que eram posteriormente reclamados junto do Midland Bank. Falta esclarecer porque é que o banco inglês usava o seu parceiro português como intermediário para ajudar um dos lados do conflito espanhol.

Patrocinado pelo regime, o apoio da elite económica nacional não ficaria por aí. No verão de 1936, Salazar terá pedido a Manuel Cordo Boullosa, empresário nascido na Galiza, que dispensasse petróleo aos sublevados, havendo registo do embarque em Portugal de 10 mil litros de combustível destinado à aviação. Com efeito, pelo território português passou uma fatia substancial dos carburantes que alimentaram a máquina militar franquista, através das petrolíferas norte-americanas aqui representadas – entre elas, as norte-americanas Vaccum e a Texaco.

Lisboa transformou-se em pouco tempo num dos principais centros de compras dos «nacionalistas». As aquisições eram feitas diretamente a empresas portuguesas, mas também através destas à indústria norte-americana e europeia. Os bens de consumo destinados aos sediciosos, como alimentos, calçado, têxteis, tabaco, peças para viaturas e medicamentos, eram produzidos ou passavam através de Portugal. Em parte eram empresas portuguesas como a Sociedade Geral, de Alfredo da Silva, que os transportavam para a Espanha «nacionalista».

O Governo de Burgos mantinha em Lisboa agentes credenciados para a compra de material militar, com as fábricas de Barcarena e de Sacavém a produzirem munições, explosivos, granadas e bombas para as tropas do general Franco. Muitas das aquisições de armamento faziam-se também através de empresas que se encarregavam de adquirir o material encomendado pelos «nacionalistas» na Europa e nas Américas.

Não poucas vezes foi o próprio Governo a fazer as encomendas para iludir o embargo e o acordo de não intervenção.

Lisboa tornou-se, assim, um dos principais clientes da indústria bélica alemã. Segundo António Louçã, em 1937, Portugal saltou subitamente para o terceiro lugar mundial e para o primeiro lugar europeu no rol de clientes da indústria bélica alemã. «A Espanha em guerra, sorvedouro e destino óbvio para todo o tipo de equipamentos militares, nem sequer figura na lista», escreve o historiador.

No plano diplomático, esse esquema trouxe alguns dissabores ao regime português, com governos como o sueco, num caso de componentes para pólvora, a exigirem garantias a Lisboa de que o material fornecido não seria reexportado para Espanha.

PREOCUPAÇÃO CENTRAL

O conflito espanhol foi desde o início até ao final (em abril de 1939) a preocupação central da política externa portuguesa, conduzida pessoalmente por Salazar depois da exoneração, em novembro de 1936, do ministro dos Negócios Estrangeiros, Armindo Monteiro, na altura nomeado embaixador em Londres.

No plano bilateral, o regime foi célere a cortar relações com a República. Fê-lo em outubro de 1936, invocando atitudes hostis do Governo de Madrid para com Portugal. Ora, isso correspondeu a um reconhecimento de facto da junta militar que se instalara em Burgos. O reconhecimento oficial ocorreria só em maio de 1938, quase um ano antes do final da guerra civil.

Para estreitar os laços com o «Estado Espanhol» sediado em Burgos, Salazar nomeou, em dezembro de 1937, Pedro Teotónio Pereira, seu «agente especial» junto do governo de Burgos. Tido como um dos falcões do regime,  Teotónio Pereira chegou a partilhar com os franquistas a frustração face ao arrastamento do conflito, que, temia-se, podia prolongar-se ao ponto de degenerar numa guerra europeia generalizada.

No teatro internacional, a discutir o acordo multilateral de não-intervenção ou a participar na comissão de aplicação desse acordo, o regime português foi para os «nacionalistas» um aliado frio, hábil, firme e implacável. A documentação do Arquivo Oliveira Salazar referente a essa época pode ser consultada na Torre do Tombo e é, quanto a isso, bastante esclarecedora.

Orientada pessoalmente por Salazar e executada pelo secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Teixeira de Sampaio, a diplomacia portuguesa recorreu engenhosamente a estratagemas ardilosos e a formulações sibilinas para empatar e adiar decisões, levantando todo o tipo de obstáculos a todas as propostas que pudessem não favorecer os franquistas e prejudicar o Governo legítimo sufragado nas urnas pelos espanhóis. Primeiro em torno da adesão portuguesa aos débeis mecanismos decididos pela comunidade internacional, depois opondo-se abertamente a qualquer tentativa de mediação internacional, a pretexto de em Espanha se travar uma «luta pela civilização ocidental».

Sempre que pôde, Lisboa – isto é, Salazar – boicotou os planos de fiscalização das fronteiras terrestres e marítimas no âmbito da verificação do princípio da não intervenção, o que acabou por levar os agentes fiscalizadores britânicos a abandonarem a sua missão em território português. Por outras palavras, «Salazar foi a política externa, a diplomacia do regime de Burgos», como destaca Fernando Rosas, num escrito de meados da década de 80.

Mas se Salazar pôs toda a sua habilidade política e, em certa medida, o aparelho de Estado português ao serviço de Franco, fê-lo sobretudo em causa própria: afastou o perigo de subversão a partir de Espanha, um fantasma que o ajudou a reforçar internamente o nacionalismo português. Ou, nas palavras de António Ferro, diretor do Secretariado da Propaganda Nacional, «a revolução espanhola e a guerra civil muito contribuíram para a união de todos os portugueses em volta do seu chefe, Salazar, e para a consolidação do regime por ele criado.»

(Artigo publicado originalmente na revista Visão História, edição n.º 18, 1 de dezembro de 2012. Reeditado em outubro de 2014)

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