Não guarde para si. Partilhe!

SALAZAR SABIA

Por altura da sedição, o eixo Lisboa-Cascais fervilhava de exilados espanhóis de extrema-direita. Entre eles, o general José Sanjurjo, que liderou o início do pronunciamento a partir da Quinta da Marinha (Cascais).

AMIGOS COM FRONTEIRAS
Corolário das relações bilaterais estabelecidas entre Salazar e Franco durante a guerra civil foi a assinatura do Tratado de Amizade e Não Agressão Luso-Espanhol, ou Pacto Ibérico, a 17 de março de 1939, em Lisboa, entre o ditador português e o embaixador dos «nacionalistas» em Lisboa, Nicolás Franco, irmão do generalíssimo. Portugal e Espanha reconhecem mutuamente as respetivas fronteiras e estabelecem relações de amizade, comprometendo-se a efetuar consultas diversas entre si, com vista a uma ação concertada. Há quem defenda que o Pacto apadrinhado por Londres foi a razão pela qual a Espanha se manteve como não-beligerante na Segunda Guerra Mundial, contrariando os setores mais radicais do regime espanhol.

Sanjurjo instalara-se ali em 1934, depois de ter passado pela prisão na sequência de uma rebelião militar contra a República em 1932 – a «sanjurjada». O general acabou por morrer a 20 de julho, quando o avião que ia transportá-lo para Burgos (a «capital» dos revoltosos) se despenhou durante a descolagem.

O ditador português terá sido posto ao corrente da conspiração espanhola nos meses que antecederam o Alzamiento Nacional de 18 de julho. A literatura abunda de indícios nesse sentido. Para Ribeiro de Meneses, esse conhecimento prévio explica a ausência de hesitações e a atitude resoluta de Salazar perante o golpe. Por seu turno, César Oliveira fala das ligações que Salazar mantinha com Sanjurjo e outros elementos dos círculos conspirativos.

O marquês de Quintanar, outro conspirador, manteve encontros regulares com o ditador português a partir de março de 1936. O diário de Salazar menciona um encontro com o aristocrata espanhol a 28 desse mês, para «discutir coisas de Espanha».

Mais: no próprio dia da sublevação, 18 de julho (um sábado), às 15 horas, Salazar reuniu-se com o diretor da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), capitão Agostinho Lourenço, e o ministro do Interior. Sanjurjo e Quintanar também estiveram presentes. Vale a pena mencionar aqui que, a fazer fé no seu diário, Salazar se encontrara na véspera, às 22h e 45, com o banqueiro Ricardo Espírito Santo, que, veremos adiante, acabou por ser relevante no apoio financeiro aos franquistas. A razão da hora tardia do encontro permanece um mistério.

Entretanto, dá-se a sublevação em Espanha e, no Hotel Aviz, um dos mais luxuosos da capital portuguesa, começa a reunir-se diariamente um grupo de apoiantes franquistas. Os encontros eram patrocinados por José Maria Gil-Robles, líder da Confederação das Direitas, que veio para Portugal com Nicolás Franco, representante diplomático da junta militar de Burgos, para coordenar a ajuda aos nacionalistas.

Com as operações militares em curso, o Governo teve necessidade de dissimular o apoio inequívoco dado pelo Estado Novo aos franquistas. Para tal, Salazar incumbiu o magnata algarvio das conservas Sebastião Ramirez, seu antigo ministro do Comércio, de dar resposta aos pedidos dos militares sediciosos.

Num telegrama de 6 de agosto para o Governo legítimo em Madrid, o embaixador Sánchez Albornoz descreveu a reação de pânico no regime português quando é divulgada a notícia de que o Governo da República decidira armar as milícias populares para fazer frente à rebelião dos militares: «A partir desse dia perderam o controlo da sua dissimulação diplomática.»

AJUDA PORTUGUESA FOI DECISIVA

Na última semana de agosto de 1936, o encarregado de negócios da legação alemã em Lisboa, o conde Du Molin, mostrava-se bem informado ao enviar para Berlim uma nota esclarecedora. No documento, citado por Ribeiro de Meneses, o diplomata germânico destaca a determinação do Governo português em manter uma «política clara de apoio total aos rebeldes» na medida em que tal era possível fazê-lo, mantendo ao mesmo tempo uma aparência de neutralidade».

Segundo o diplomata, Salazar alistou a imprensa no apoio ao exército sedicioso; facilitou a compra de todo o tipo de material de guerra para os «nacionalistas»; garantiu que os mais esmerados funcionários aduaneiros não estivessem a olhar na direção certa quando as mercadorias eram descarregadas ou embarcadas; autorizou a utilização do território português para o transporte de munições entre a zona do sul de Espanha, controlada pelos sediciosos, e Burgos; permitiu a aterragem em Portugal dos Junkers 52 alemães que, em Julho, transportaram as tropas do general Franco entre Marrocos e Sevilha; confinou os refugiados republicanos a improvisados campos de concentração na raia ao mesmo tempo que dava calorosas boas-vindas aos nacionalistas.

Outro exemplo concreto é descrito por António Louçã em Conspiradores e Traficantes (Oficina do Livro, 2005): os cargueiros alemães Wigbert e Kamerun chegaram, a 21 de agosto de 1936, ao porto de Lisboa, carregados de aviões militares, bombas, munições e combustível. O material destinado aos «nacionalistas» teve de seguir pela via-férrea e foi descarregado na capital portuguesa por militares vestidos à civil. Segundo o historiador, terá sido o próprio Salazar a intervir para acelerar o processo.

O apoio português na primeira hora da sublevação foi decisivo para a operação militar não abortar, dando aos militares sublevados o fôlego necessário para fazer face à resistência inesperada de largos setores da população.

Os bancos portugueses estiveram entre os primeiros na concessão de créditos às forças franquistas. «Modestos mas pioneiros, que alumiam duas vezes o caminho aos bancos mais hesitantes», ironiza António Louçã.

O próprio Salazar terá dirigido um apelo aos banqueiros do Estado Novo para que fossem em auxílio urgente de Franco. Mas a documentação, incluindo o diário do ditador, é omissa. Tendo em conta a disponibilidade revelada pela alta finança portuguesa e os testemunhos orais, tudo leva a crer que tenha ocorrido. Existem, por exemplo, as memórias que Jorge de Mello partilhou com o biógrafo Miguel Figueira de Faria de que Salazar se dirigiu ao seu avô, o industrial Alfredo da Silva, dizendo: «O Governo não pode fazer nada, mas o senhor pode, se quiser.»

Assim, o fundador da CUF, através da sua Sociedade Geral, foi o primeiro a avançar com um empréstimo ao Governo de Burgos. E isso logo a 11 de agosto de 1936, escassas três semanas após o início da sedição. O crédito de 17 500 libras foi aprovado a favor de Andrés Amado, que mais tarde viria a ser nomeado ministro da Fazenda do primeiro Governo de Franco.

Pages: 1 2 3