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Em coautoria com Clara Teixeira (Jornalista da VISÃO)
 
 
 

O ditador português estava ao corrente da conspiração que aniquilou a República Espanhola e pôs toda a sua habilidade política, bem como o aparelho de Estado português ao serviço da causa franquista. Essa ajuda foi decisiva

Vindos da base militar de Marín, na Galiza, três hidroaviões militares sublevados que procuram juntar-se às tropas franquistas em Tetuão, Marrocos Espanhol, interrompem a jornada em Lisboa por necessidade de reabastecimento.

Ao ser informado, ainda nessa madrugada de 26 de julho de 1936, da presença dos aparelhos amarrados na Doca do Espanhol em Lisboa, o embaixador da República Espanhola na capital portuguesa, Claudio Sánchez-Albornoz, reclama às autoridades locais o apresamento das aeronaves sediciosas e a sua entrega ao Governo constitucional de Madrid. Mas, como muitas outras diligências suas, desde que em maio chegara à capital portuguesa, também esta cairá em saco-roto.

A título informal, o ministro da Marinha, Ortins de Bettencourt, avisara já o seu ajudante de ordens (e cunhado) do que estava a acontecer e pediu-lhe para intervir. Voluntarioso e sedento de ação, o primeiro-tenente da Marinha de Guerra (que três dias antes iniciara um longo trajeto na política do Estado Novo, ao ser nomeado delegado do Governo junto do Grémio dos Armadores de Navios de Pesca do Bacalhau) não perdeu tempo. Henrique Tenreiro, 35 anos, juntou quatro amigos, trocou a farda da Armada por vestes de operário, comprou alguns bidões de combustível e seguiu para Belém. Depois de uma troca de sinais de luz, os hidroaviões aproximaram-se da praia de Belém e foram abastecidos à vez.

Mas a ação acabaria por ter alguns sobressaltos, como conta Álvaro Garrido no seu livro Henrique Tenreiro – uma biografia política (Círculo de Leitores, 2009). Sánchez Albornoz apercebera-se ou pelo menos intuíra o ardil e foi a correr ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, numa tentativa de impedir a jogada de Bettencourt e Tenreiro – ambos conotados com a ala mais radical do Estado Novo – faziam nas suas costas. Exigiu o apresamento das aeronaves e a detenção dos tripulantes. As autoridades acabaram por dar formalmente ordens nesse sentido e uma patrulha da polícia deslocou-se ao local.

Mas Tenreiro precavera-se. Deixara uma sentinela junto à estrada e essa foi avisá-lo de que a polícia estava a chegar. Tenreiro mandou parar o abastecimento e meteu-se dentro de água para se aproximar do «avião-chefe» e avisar o comandante: «Fujam, que vão ser aprisionados!»Espanha

Pouco depois, os aparelhos levantaram voo e puderam juntar-se aos militares sediciosos no Norte de África espanhol.

O episódio rocambolesco é bem ilustrativo do apoio que o Estado Novo concedeu – umas vezes mais outras menos dissimulado – aos «nacionalistas» espanhóis durante os quase três anos de guerra civil que se seguiriam.

REGIMES INCOMPATÍVEIS

Inesperada para os observadores portugueses, a vitória eleitoral dos partidos da esquerda espanhola, aglutinados na Frente Popular, em fevereiro de 1936, ocorreu numa altura em que, em Portugal, se consolidava o autoritarismo do Estado Novo. Nesse ano foram criadas as colónias prisionais do Tarrafal e de Peniche, especialmente para inimigos do regime, e a Mocidade Portuguesa, à imagem e semelhança da Juventude Hitleriana.

Ora, em Espanha, a subida da esquerda ao poder conduzia a evolução política num sentido oposto. Greves, reforma agrária, laicismo, campanhas de alfabetização, emancipação das mulheres e, certamente também, alguns excessos revolucionários, faziam fermentar um caldo de cultura propício a uma revolução social. Não sendo iminente, o risco para o Estado Novo salazarista era bem real. Havia, portanto, que «isolar Portugal da subversão».

«Em Espanha ‘jogou-se’ a sobrevivência do Estado Novo: a consolidação da vitória eleitoral da Frente Popular espanhola em fevereiro de 1936 ou a derrota clara do Alzamiento militar de 18 de julho criariam, inevitavelmente, num espaço geográfico limitado como é a Península Ibérica, condições que tornariam a breve trecho incompatíveis dois regimes orientados por princípios e práticas claramente contraditórios», considera César Oliveira no livro Salazar e a Guerra Civil de Espanha (O Jornal, 1987).

Garantida que estava a unidade do Governo, com Salazar a acumular a Presidência do Conselho com as Finanças, o Ministério da Guerra e, a partir novembro, também, o dos Negócios Estrangeiros, era preciso cerrar fileiras contra a ameaça de contágio. Intensificou-se a repressão contra oposicionistas e simpatizantes da República Espanhola e lubrificou-se a máquina de propaganda, que mergulhou pelo menos uma parte do País numa histeria anticomunista e num clima de exaltação patriótica.

Na tarde de 28 de agosto, uma manifestação nacionalista convocada pelos sindicatos corporativos percorreu os quatro quilómetros e meio que separam o Terreiro do Paço e o Campo Pequeno. Foi neste local, a abarrotar, que o capitão Jorge Botelho Moniz levou ao rubro uma multidão de braço estendido em saudação fascista.

Os Viriatos
O apoio aos «nacionalistas» não se ficou pelo político, diplomático, logístico, económico ou financeiro. Foi também militar. Apesar de o número total de «Viriatos» que combateram na Guerra Civil de Espanha ser ainda controverso, as estimativas mais cautelosas apontam para cerca de seis mil. O principal mentor desse apoio foi o capitão Jorge Botelho Moniz, uma figura do regime. Embora o envio de tropas para Espanha nunca tenha tido um caráter oficial, os «Viriatos», a maioria dos quais pertencendo à Legião Portuguesa, recebeu várias formas de apoio do Governo de Salazar. Esses portugueses combateram integrados nos diversos corpos militares «nacionalistas», como as Bandeiras da Legião Estrangeira, as milícias da Falange, os Requetés, a aviação militar e unidades regulares do exército. Os «Viriatos» nunca constituíram um corpo autónomo.

Este oficial, que desde a primeira hora apoiara a sedição espanhola aos microfones do Radio Clube Português, deu voz a uma pretensão da direita radical do regime: a criação de uma Legião Portuguesa. A milícia nasceu dias depois e só nos primeiros dois anos de existência enquadrou mais de 120 mil homens aos quais ministrou instrução militar.

Salazar assumiu bem cedo a ideia de «cruzada» contra o bolchevismo. Na documentação depositada na Torre do Tombo encontra-se um projeto de nota diplomática, datado de dezembro de 1936, em que o ditador afirma que em Espanha «se assiste à luta de duas civilizações ou de uma civilização contra a barbárie». Aliás, o ditador sempre pôs a questão nesses termos, sem distinguir entre moderados e rojos. Em ambos vislumbrava «doutrinas e regimes que só os que andam à cata de desilusões esperam converter ou tornar inofensivos»,  comenta Filipe Meneses Ribeiro, no seu livro Salazar uma biografia política (D. Quixote, 2009).  O Presidente do Conselho fechou-se, assim, a qualquer possibilidade de entendimento com a República. Em especial com o chefe de Estado espanhol, Manuel Azaña.

Azaña tinha – e Salazar sabia-o – uma «política portuguesa», uma política infeliz na ótica de historiadores espanhóis, como Hipolito de la Torre e Sánchez Cervellò, que legitimou o apoio do regime português aos rebeldes. O presidente espanhol auxiliou sempre os exilados portugueses em Espanha, em particular os republicanos como Afonso Costa, Bernardino Machado e o grupo dos «Budas», em torno de Jaime Cortesão, Moura Pinto e Jaime de Morais. Com eles comungava da ideia de que seria possível uma união de democracias ibéricas baseada no respeito mútuo.

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