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LAIKA MORREU DE CALOR

Alguém na equipa lembra-se então de recorrer a um cão, uma ideia com pelo menos um ano. Além de que, segundo escreverá o jornalista e cosmonauta Yaroslav Golovanov, em 1986, no jornal Izvestiya, já se fizeram experiências com cães embarcados em mísseis balísticos. Finalmente, no dia 3 de novembro, as imagens televisivas da cadela Laika correrem mundo, desferindo mais um severo golpe no orgulho norte-americano. A propaganda soviética transmite a ideia de que Laika viaja durante uma semana à volta da Terra, até a máquina de doseamento de alimentos lhe apresentar uma ração envenenada para que adormeça suavemente e sem dores antes da desintegração da nave ao reentrar na atmosfera.

Tiveram de passar algumas décadas para se saber que a cápsula espacial estava deficientemente isolada e que a temperatura começou a aumentar quando a nave entrou em órbita. Algumas fontes russas mencionam que Laika sofreu horrores durante cinco a seis horas, antes de morrer de calor. Outras falam em quatro longos dias.

Seja como for, o líder soviético esteve em condições de humilhar os EUA pela segunda vez, ao fazer daquela rafeira que antes vadiava pelas ruas de Moscovo o primeiro mamífero a visitar o Espaço, provando a supremacia soviética.

É neste dia que as viagens espaciais deixam de ser consideradas um passatempo de lunáticos obcecados com os astros e que a cúpula do partido preferiu ocupar, durante anos, com o desenvolvimento de mísseis balísticos intercontinentais capazes de transportar a bomba de hidrogénio até à América. A cosmonáutica é, finalmente, a ser uma prioridade.

Prova disso são os números estimados pela espionagem americana, que em 1969 dão conta de que o regime de Brejnev continua a canalizar vastos recursos para o programa espacial, apesar das dificuldades económicas. A CIA, no relatório 11-1-1969 sobre o Programa Espacial Soviético, calcula que Moscovo gastou 1 400 milhões de dólares em 1962, em 1965 uns 4 500 milhões e 6 400 milhões em 1968. Ou seja, um aumento de 357% em seis anos. No documento classificado como top secret e distribuído a um número restrito de pessoas nas vésperas da chegada dos americanos à Lua, diz-se que, entre 1957 e 1964, os soviéticos levaram a cabo um total de 106 lançamentos. O ritmo aumentou significativamente, tendo totalizado 102 nos dois anos seguintes. E entre abril de 1967 e março de 1969, Moscovo procedeu a 158 lançamentos.

A URSS mantém-se na vanguarda da corrida espacial pelo menos durante nove anos após o lançamento do Sputnik 1. À Laika seguem-se duas outras cadelas que regressam a Terra sãs e salvas, abrindo caminho para Iuri Gagarine se tornar o primeiro homem no Espaço. Os acontecimentos sucedem-se em catadupa: os soviéticos são os primeiros a sair das naves espaciais para atividades extra-veiculares, os primeiros a conseguir acoplar naves não tripuladas e a fazer o acoplamento de naves tripuladas, entre muitos outros feitos pioneiros.

SEGREDO BEM GUARDADO

Grande parte do sucesso deveu-se a Sergei Korolev, um homem de testa larga, cuja cabeça assenta sobre um pescoço curto e que se o assemelha a um pugilista em combate. É ele a principal arma de Moscovo na «guerra» espacial e o segredo mais bem guardado do império.

Um dia, membros do Comité Nobel perguntarão a Khrushchev a identidade de quem colocara o Sputnik em órbita, e o líder soviético responderá: «Foi o povo da União Soviética.» Lenda ou não, a verdade é que o nome de Korolev será ventilado para fora da Cortina de Ferro depois da sua morte, em 1966.

A navegação espacial soviética não se faz, porém, apenas de sucessos. Regista muitos falhanços pelo meio. E tragédias.

Chegaram primeiro ao espaço, mas também se tornaram os primeiros a sofrer baixas, como a morte do cosmonauta Valentin Bondarenko, num incêndio durante um treino. Outros terão sucumbido em missões anteriores a Gagarine.

De uma maneira geral, os acidentes são segredos bem guardados. O Partido só torna públicos os êxitos. A explosão de um foguetão do tipo R16, no centro espacial de Baikonur, a 24 de outubro de 1960, é disso um bom exemplo. No desastre morrem, mais de uma centena de pessoas, entre elas o marechal Mitrofan Nedelin, comandante das Forças de Mísseis Estratégicos da URSS. O que só se virá a saber já na década de 90. Oficialmente, Nedelin foi vítima de de um acidente de aviação como refere o comunicado emitido a 26 de Outubro de 1960 pelo Comité Central do PCUS.

Revezes ocorreram também na corrida à Lua, depois dos êxitos iniciais, em 1959, das missões Lunik e, a partir de 1963, com o Programa Luna. É em meados da década de 60 que os americanos ganham a dianteira. No relatório da CIA de 1969 fala-se da aparente perda de interesse da URSS pela corrida lunar. Com efeito, vendo dificuldades nessa competição, Moscovo direciona os esforços para as estações espaciais e para a permanência de humanos por longos períodos no espaço.

Mas o declínio já começou. Ao contrário dos EUA, que na sequência do choque provocado pelo voo do Sputnik 1 unificam a investigação e desenvolvimento da navegação espacial sob o teto da NASA, a URSS mantém toda a atividade dispersa por quatro grupos que rivalizam entre si, não poucas vezes sonegando informação uns aos outros. Enquanto foi vivo, Korolev e o seu gabinete de construção foram os líderes destacados. Mas quando o designer-chefe morre, em janeiro de 1966, na sequência de uma cirurgia a um cancro no cólon, as rivalidades e a luta pela primazia dos favores do Kremlin acentuam-se, contribuindo em grande medida para o declínio do programa.

Às guerras intestinas, que levam a falhanços sucessivos, acresceram rombos consideráveis na autoconfiança soviética.

Além do seu mais carismático génio aeroespacial, a URSS perde em pouco tempo outros dois maiores símbolos da sua Cosmonáutica: em 1967, o coronel Vladimir Komarov não sobrevive à aterragem violenta da sua Soyouz 1, após um voo espacial, e um ano depois o herói cósmico Iuri Gagarine desaparece num trágico acidente de aviação.

O certo é que não foi por falta de engenheiros capazes que Moscovo ficou para trás na corrida à Lua. As criações de Korolev perduram até hoje. Quando morreu, o engenheiro para quem a simplicidade de uma construção era uma manifestação de génio («construir coisas complicadas pode qualquer um», dizia) trabalhava no desenvolvimento de foguetões capazes de levar a cabo missões tripuladas ao satélite natural da Terra. Quatro décadas após a sua morte, ainda hoje são usadas versões melhoradas dos seus Soyouz que levam satélites para o espaço. E partindo do mesmo local de onde outrora foi lançado o Sputnik.

(Este texto foi originalmente publicado na revista Visão História n.º5, de 12 de agosto de 2009, reditado em outubro de 2014)

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