Não guarde para si. Partilhe!
Cronologia interativa
First_SpacewalkClique na imagem para ver

‘BIP-BIP, BIP-BIP’

Em terra, viveram-se momentos de ansiedade. Aos 16 segundos de voo, o sistema de esvaziamento simultâneo de tanques falhou, o que levou a um maior consumo de querosene e, logo, à falha de uma turbina, fazendo o motor parar um segundo antes do previsto. No entanto, aos 324,5 segundos dá-se a separação do segundo módulo do foguetão e a esfera brilhante de 83,6 quilos é lançada numa trajetória elíptica. Pela primeira vez, a Humanidade deixa de estar presa à Terra e ultrapassa os limites do seu próprio planeta, colocando em órbita um objeto fabricado pelo homem.

Em Tyuratam aguarda-se a confirmação.

O silêncio reina quando chega a informação de que, a milhares de quilómetros dali, uma estação-rádio da península de Kamchatka, na costa do Pacífico, captou o primeiro sinal. Korolev abafa a tempestade de euforia. «Parem com a festa», ordena. «O pessoal na estação pode ter-se enganado. Vamos confirmar quando o satélite nos passar por cima, depois da primeira órbita.» Pouco depois, o «bip-bip» que o rádio de ondas curtas do satélite emitia tornava-se crescentemente audível. Aí sim, houve gritos, brindes e bebedeira.

Em Moscovo, o Centro de Coordenação e Computação fazia os cálculos: o satélite estava em órbita com um perigeu (ponto mais baixo) de 228 quilómetros e um apogeu (ponto mais alto) de 947 quilómetros (80 abaixo do planeado). Até esgotar as baterias, o Sputnik, enviou informação sobre a temperatura. Depois disso, o satélite permaneceu ainda no espaço. No total descreveu 1.400 órbitas em torno da Terra, desintegrando-se passados 92 dias, ao reentrar na atmosfera terrestre.

NIKITA FOI PARA A CAMA

Discretamente, os soviéticos acabam de inaugurar a era espacial, mas nem o próprio Nikita Khrushchev, presidente da URSS e secretário-geral do Partido Comunista, sempre pronto para passar a perna aos americanos, percebe de imediato o alcance do que está a acontecer.

«Telefonaram-me a dizer que o foguetão tinha sido lançado e que o satélite já gravitava à volta da Terra. Congratulei o grupo de engenheiros e técnicos pelo feito extraordinário e fui calmamente para a cama», dirá anos depois (citado por Nicholas Daniloff, em The Kremlin and the Cosmos). No dia seguinte, o jornal oficial Pravda traz apenas uma notícia seca que nem destaque de primeira página mereceu.

Será só dois dias depois, com a notícia já espalhada pelo mundo e depois de o Sputnik ter passado várias vezes sobre os EUA, aterrorizando os norte-americanos, que Moscovo percebe o calibre da arma propagandística que tem em mãos.

Khrushchev entra em êxtase. E, na semana seguinte, chama Korolev além de outros responsáveis aeroespaciais para lhes perguntar: «Estamos em condições de mostrar algo mais espetacular no Espaço por ocasião do 40.º. Aniversário da Revolução de Outubro?»

Korolev objeta. Não faz sentido repetir o lançamento, além de que será impossível desenvolver e produzir um satélite em menos de um mês. «Em privado», conta Chertok no livro de memórias, «estava justificadamente apreensivo.»

O golpe pode resultar em fracasso, como aliás aconteceu com a maioria das tentativas. Mas Khrushchev é implacável. «O sucesso político que lhe havíamos dado e poderíamos voltar a dar com outro lançamento espetacular era para ele mais importante do que refinar o míssil nuclear intercontinental», relata Chertok.

Já Sergei Khrushchev, filho do líder soviético, relata no livro Nikita Khrushchev and Creation of a Superpower (tradução inglesa) que Korolev terá recebido a «ordem» de bom grado. Permitia-lhe acelerar o desenvolvimento dos seus planos de exploração do Espaço; por outro lado, o argumento da «ordem pessoal» do líder dava-lhe margem para intimar os subordinados a trabalharem mais.

Pages: 1 2 3