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  A era espacial começou com um bip-bib do Sputnik. Sergei Korolev colocou-o em órbita e à URSS na vanguarda da corrida espacial, mas a morte do engenheiro marcou o declínio do programa soviético

Os portões abrem-se ao crepúsculo. O satélite e o foguetão rolam num vagão em direção à rampa de lançamento. Os homens também saem do hangar de montagem nesta madrugada de 3 de Outubro de 1957. Estão exaustos. Mas preferem fazer a pé o quilómetro e meio de caminho até à rampa.

Passaram apenas quatro semanas desde que o chefe do Gabinete Experimental de Construção 1 (OKB 1, um dos centros soviéticos de desenvolvimento de mísseis), Korolev, apareceu em Tyuratam, a base secreta na estepe do Cazaquistão que mais tarde ficará conhecida como a «Gare Espacial» de Baikonur. Agora, o engenho redondo de que cuidara como de um filho repousa na ponta de um foguetão R7, inicialmente concebido para ser o primeiro míssil balístico intercontinental, capaz de atingir os EUA com ogivas nucleares.

Desde a sua chegada que se trabalha a uma velocidade alucinante. Boris Chertok, um dos seus braços-direitos, contará num livro de memórias (Rockets and People, na versão inglesa) que a fábrica trabalha 24 horas por dia. Toda a gente alinha na produção da esfera reluzente com quatro grandes caudas, as suas antenas.

Todos andam nervosos. O lançamento do satélite tinha sido programado para 7 de Outubro, mas Korolev decidiu antecipá-lo para dia 4. Os americanos anunciaram, há três meses, estarem a preparar-se para lançar um satélite e cheira-lhe que devem querer fazê-lo por esta altura.

Com a sua obra finalmente sobre carris, Korolev suspira de alívio. Sente-se tranquilo.

Falta apenas atestar o foguetão e proceder aos últimos preparativos. «Ninguém vai apressar-nos», diz aos seus engenheiros. «Se tiverem a mínima dúvida, paramos os ensaios e faremos as correções no satélite. Temos tempo.»

Quando, ao cair da noite de 4, a luz dos holofotes banha a rampa de lançamento, a silhueta do foguetão, recortada no céu, impõe a sua presença. Na estação de controlo, um bunker situado mesmo por baixo da rampa, reproduzem-se mecanicamente gestos e procedimentos já ensaiados. Korolev tem os nervos em franja, mas tenta disfarçar. Olha para o relógio. «Falta um minuto», grita.

Às 22 h, 28 m e 34s, hora de Moscovo, o jovem tenente de artilharia Boris Chekunov, aciona o comando de lançamento ao ouvir a ordem de ignição no final da contagem decrescente. O R7, cuja construção Korolev baseara nos mísseis V2 (criados pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial), solta um ronco e é empurrado por uma imensa coluna de fogo e de fumo em direção ao céu coberto de nuvens. O aparelho mergulha na noite e perde-se de vista. «Newton calculou a primeira velocidade cósmica. Agora, três séculos depois, uma criação da mente e das mãos humanas atingiu-a pela primeira vez», escreverá depois Chertok no livro Kosmonavtika SSSR (Cosmonáutica da URSS).

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