O exílio amargo de Humberto Delgado

Exilado no Brasil, o General sem medo, trabalhou para uma empresa que fornecia cabazes de Natal. Mas foi despedido depois de ter liderado a revolta de Beja

Não guarde para si. Partilhe!

Exilado no Brasil, Humberto Delgado trabalhou para uma empresa que fornecia cabazes de Natal. Mas foi despedido depois de ter liderado a revolta de Beja. O general sem medo chegou a ponderar entregar-se à PIDE, apesar de em Portugal ter sido condenado, à revelia, a uma pena de 19 anos de prisão

Bateu no fundo, naquele ano de 1962. Era o mês de agosto de um ano que ele começou de forma gloriosa, ao liderar uma revolta militar contra Salazar e ao ludibriar a polícia secreta do ditador, entrando e saindo clandestinamente em Portugal. E estava a revelar-se o mais penoso desde que se exilara no Brasil, três anos antes.

Humberto Delgado teve de deixar o modesto, mas espaçoso apartamento na Avenida da Liberdade, num bairro de São Paulo onde a maioria dos seus vizinhos eram japoneses pobres, para o trocar por um bem mais modesto e acanhado no Rio de Janeiro. O general não tinha meios de subsistência por ter perdido o emprego.

Atravessava a pior fase da sua vida. Estava a pagar cara a ousadia de ter tentado derrubar a ditadura pela força e de o não ter conseguido.

Rui Amaral Lemos, o patrão de Humberto Delgado, não terá aprovado a sua incursão a Beja à frente dos revoltosos, segundo noticiou a imprensa brasileira da época. Descendente de portugueses, este diretor de uma empresa paulista, a Alimentos Selecionados Amaral, oferecera-lhe emprego como relações públicas da firma, em dezembro de 1959, depois de o regime português ter erradicado o general definitivamente do Exército, deixando-o sem meios de subsistência, na sequência de uma muito badalada viagem sua a Londres em novembro desse ano, na qual desmascarou o regime português e imputou métodos nazis à PIDE.delgado_brasil

Delgado chegara ao Rio de Janeiro a 21 de abril de 1959, fazia conferências, escrevia cartas às altas figuras mundiais a denunciar o que se passava em Portugal e nas colónias, dava entrevistas, publicava artigos em jornais, a arrasar a ditadura portuguesa e a compara a PIDE à Gestapo, mas nada disso lhe garantira o sustento. Assim, aceitou de bom grado a oferta de trabalho em São Paulo e mudou-se para lá em janeiro de 1960.

As “Cestas do General”

Instalou-se inicialmente rua Canuto Saraiva, começando a trabalhar (de facto) na empresa especializada em coloridas cestas recheadas de alimentos. Eram sobretudo cabazes de Natal a que hoje chamaríamos gourmet. Por um salário de 50 mil cruzeiros mensais, o general encarregou-se da promoção das famosas «Cestas Amaral», que a partir daí passaram a ser também conhecidas na colónia portuguesa como as «Cestas do General».

Depois de Beja, muitos clientes da firma boicotaram a compra dos cabazes, explica um dos netos, Frederico Delgado Rosa, no seu livro sobre o avô, Humberto Delgado – Biografia do General Sem Medo. Amaral Lemos foi fortemente pressionado para o afastar e fê-lo. Ter-lhe-á dito que havia «demasiada interferência política» com a sua permanência na empresa.

Mas não foi só essa porta que encontrou encerrada. Entre os oposicionistas havia quem se sentisse defraudado com o insucesso da revolta, virando-lhe as costas.

Já nada o segurava na cidade que o recebera em apoteose e levado em braços, quando a visitou pela primeira vez, em maio de 1959. Terá sido por essa altura que João Maria Sarmento Pimentel, paulista tido como o ancião da oposição portuguesa em São Paulo, terá comentado que o general fez mais pela oposição democrática portuguesa no exílio em trinta dias do que esta por si própria em trinta anos, como relata Arajaryr Campos, a secretária de Delgado, no seu livro Uma Brasileira contra Salazar (livros Horizonte).

Só depois de lá se ter instalado, para trabalhar (e continuar a atividade política), Delgado começou a sentir que São Paulo lhe era hostil, cheia de inimigos – não tanto os salazaristas, mas no seio dos próprios meios oposicionistas portugueses. O mesmo Sarmento Pimentel que o elogiara, revelar-se-ia um dos seus mais ferozes inimigos durante o exílio paulista.

«Porque estar neste ninho de vermina?», questionava-se o general em agosto de 1962.

Foi curta a lua-de-mel paulista e duro o embate. Delgado enfrentou os salazaristas, as pressões do regime português sobre o governo brasileiro e os pides que o vigiavam ou que tinham infiltrado o seu movimento; mas também uma oposição exilada mesquinha, mais empenhada nas intrigas, na procura de protagonismo, nas rivalidades pessoais e entre grupos do que propriamente no combate político contra a ditadura.

Homem de ação, Delgado não pôde ficar parado, apesar da sua condição de exilado político (ainda que informal) não lhe permitisse a atividade político-conspirativa. Afinal, fora para o Brasil unificar a oposição portuguesa e a partir dali dirigir a revolução em Portugal, não para ficar sentado à espera que Salazar caísse da cadeira do poder.

Ora isso chocava com as ideias de numerosos exilados portugueses, sobretudo os setores afetos ao Partido Comunista (PCP), que entendiam que a revolução tem de ser liderada de dentro do país, com os que estão no seu interior, não de fora. A chegada do general à ala anti-salazarista da colónia portuguesa provocou vários choques. De personalidades e de quereres.

Delgado tinha pressa; os seus detratores achavam que ia demasiado depressa; Delgado queria partir para a ação direta; os seus detratores mudar o regime através do combate político e da mobilização de massas; Delgado queria assumir-se como líder da oposição portuguesa, reproduzindo no Brasil o Movimento Nacional Independente (MNI), que já tinha criado antes em Portugal; os seus detratores queriam-no como figura decorativa e aglutinadora, não como líder.

O general teve de puxar muitas vezes dos galões de «presidente eleito de Portugal» defraudado na farsa eleitoral de 58 ou, pelo menos, os de único dirigente da oposição sufragado nas urnas. E, quando necessário, também puxava pelas estrelas de general.

Quis unificar a oposição portuguesa, mas encontrou o terreno minado, cheio de obstáculos, alçapões, portas falsas, traições e mal entendidos.

Por todo o Brasil era um pouco assim. Mas, em São Paulo, a oposição portuguesa tinha uma postura intelectualmente arrogante. No Rio, ao menos tinha a Associação General Humberto Delgado, presidida por Luís Carvalhal, de que ele era patrono e lhe garantira apoio financeiro nos primeiros tempos de exílio, enquanto não arranjou trabalho.

Quando em agosto de 1962, parte numa viagem de sete horas de autocarro para o Rio de Janeiro, por não se poder dar ao luxo de ir de avião, Delgado é um homem amargurado. A atenuar-lhe essa dor na partida, só o grupo de jovens anti-salazaristas, alheios às intrigas dos velhos, que se foi despedir dele.

O amigo Galvão…

Até a sua amizade de longa data com outro dissidente do Estado Novo, Henrique Galvão, se esboroou em São Paulo, ao ponto de se tornarem inimigos. Tinha sido com ele que Galvão planeara o assalto ao paquete Santa Maria. O «presidente eleito dos portugueses» foi o comandante supremo daquele ato de guerra contra o Estado Novo.

Ambos entenderam que a luta de portugueses e espanhóis devia ser conjunta. Era preciso responder ao Pacto Ibérico dos ditadores Salazar e Franco com uma aliança das oposições ibéricas. Galvão associou-se a antifranquistas espanhóis para formar o Directório Revolucionário Ibérico de Libertação (DRIL) e lançar operações contra as duas ditaduras – atentados, sabotagem e propaganda. Foi essa organização que sequestrou o Santa Maria. Por seu lado, Delgado deu a cara pela operação e assumiu a responsabilidade. «Fui eu quem deu a ordem», afirmou. Mas no plano político também ele se associou aos espanhóis. Negociou e, no início de 1961, assinou com Emílio Herrera, presidente do governo republicano de Espanha no exílio, um acordo luso-espanhol cuja finalidade era criar as bases de como os democratas deveriam agir antes, durante e depois da revolução em Portugal Espanha. Entre outros aspetos, ficou assente que o governo revolucionário provisório de um país, auxiliaria os revolucionários do outro.

Dos pormenores desse acordo foi dado conta a Salazar pela PIDE, que na mesma nota informativa de março de 1961, comunica ao ditador: «Diz-se que entre Galvão e Delgado começaram a surgir desentendimentos». Delgado, seria, segundo a polícia secreta salazarista, «acusado por Galvão de ter recebido 200 mil dólares e de não os ter empregado no movimento revolucionário do DRIL».

Não é possível confirmar a veracidade dessa informação. Mas sabe-se que Humberto Delgado nunca foi membro do DRIL, apesar de ter assumido a liderança formal do desvio do navio. E também se sabe até que ponto a polícia política de Salazar era exímia na criação e propagação de boatos e calúnias sobre os portugueses que considerava renegados e inimigos de Portugal.

… torna-se inimigo

Galvão e Delgado tiveram razões de sobra para desavenças. Mas essas seriam mais de cariz político e operacional ou relacionadas com o temperamento de cada um.

O caso Santa Maria não terá sido determinante na rutura, mas influiu. Delgado sentiu-se frustrado com o desfecho da Operação Dulcineia. O plano era levar o navio até África e sublevar a guarnição de Luanda, onde se formaria um governo provisório liderado por Delgado, na primeira parcela de território português libertada.delgado_e_galvao

No comando da operação, Galvão decidiu parar, logo no início da viagem, na ilha de Santa Lúcia para desembarcar dois tripulantes feridos que correriam risco de vida. Ora isso revelou logo a Salazar e ao mundo que o navio tinha sido tomado por rebeldes. Delgado achava que se devia ter corrido o risco, por entender que a perda de vidas decorre de atos de guerra. Ainda assim, pelo menos publicamente, considerava a operação um sucesso na medida que pôs o mundo a olhar para a situação em Portugal.

Mas surgiram outras desavenças. Galvão, um anti-comunista inflexível, queria excluir o PCP, ao passo que Delgado procurava estabelecer pontes com os comunistas que apresentavam reservas em relação à luta armada.

As divergências entre os dois amigos passaram ainda pela questão colonial. Enquanto Delgado defendia a autodeterminação dos povos colonizados, Galvão não queria abdicar de qualquer parcela do Império.

É verosímil imaginar que Delgado pensou em tudo isso na longa viagem de omnibus até ao Rio, onde constatou amargamente que a procura de trabalho naquela cidade era um ordálio, sobretudo tendo os seus antecedentes, a sua idade (56 anos) e a crise – uma inflação galopante e a desvalorização persistente da moeda brasileira – a desajudarem.

Na penúria, os parcos rendimentos do general tinham de chegar para ajudar a família em Portugal e garantir uma grande parte do MNI – como as despesas de funcionamento, incluindo o vencimento de Arajaryr Campos, a sua fiel e competente secretária, que com ele viria a morrer, em fevereiro de 1965, na cilada montada pela PIDE nas proximidades de Badajoz.

Foram uma vez mais o naquela altura ainda dedicado Luís Carvalhal e a Associação General Humberto Delgado a darem-lhe a mão. Mas o dinheiro das cotizações já não era tão abundante como fora no início do exílio.

Delgado ponderou a hipótese de regressar a Portugal e entregar-se à PIDE, onde o aguardariam longos anos naquele que designava de «hotel gratuito da Penitenciaria de Lisboa», na qual já tinha, desde que em fevereiro o regime o condenara no âmbito do assalto ao Santa Maria, garantidos 19 anos de, como ele próprio escreveu «cama, mesa e teto» de graça. Mas afastou a hipótese, pois jurara a si mesmo que a polícia política do ditador de Santa Comba Dão nunca o apanharia vivo, como recorda o seu neto na biografia exaustiva.

A precariedade material seria apenas atenuada, pela assinatura de um contrato com a editora Civilização Brasileira para escrever O Infeliz Amor de Soror Mariana Alcoforado, um livro sobre a freira de Beja, uma das personagens históricas que mais o fascinavam. Publicou também Tufão sobre Portugal, uma antologia de textos políticos. Os direitos de autor mal davam para «acudir um pouco ao guarda fato e roupa branca – tudo num foi».

O apelo de Cunhal

No meio dos apertos desse terrível ano de 1962 foi convocado por Álvaro Cunhal, que pretendia realizar uma conferência de dirigentes da oposição no estrangeiro, para estudarem formas práticas de ação conjunta contra a ditadura. Mas ele faltou à conferência de Roma que, em dezembro criou a Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN). As autoridades brasileiras recusam-se a dar-lhe o «passaporte amarelo» e as italianas a conceder-lhe um visto para entrar no país… Os tentáculos de Salazar chegavam longe.

Manuel Sertório, o correligionário que o representou em Roma, regressou ao Rio com notícias animadoras: o PCP estava apostado em potenciar a luta armada, mostrava-se em sintonia com Delgado, e o caminho apontado era para a mobilização de militares antifascistas, visto que sem uma organização das Forças Armada, não era possível derrubar o regime. E isso em simultâneo com o movimento popular de massas – precisamente o que ele tentara em Beja.

Segundo o seu neto, Delgado, confiando no potencial revolucionário da FPLN, acreditou que o contributo do PCP seria decisivo na preparação da revolução.

O general animou-se. Mas a vesícula perturbava-o ocasionalmente e como não se quis arriscar a ter uma cólica em plena batalha, decidiu «arrancá-la» (a expressão é dele), sendo operado em março, no Rio. Terá sido uma das piores decisões da sua vida. A intervenção trouxe-lhe complicações.

No mês seguinte, Cunhal escreve-lhe, a pedir um encontro a dois para fazer as coisas avançarem com a FPLN, já metida numa embrulhada pelo facto de três membros da organização – Piteira Santos, Tito Morais e Rui Cabeçadas – terem decidido unilateralmente instalar uma Comissão Delegada da Frente em Argel. Cunhal preferia Roma e Delgado também, mas iria de bom grado para o primeiro país, de preferência europeu, que o recebesse em melhores condições de atuação do que as que dispunha no Brasil.

Nos primeiros dias de maio, partiu em direção à Checoslováquia para o encontro com Cunhal, em Praga.

Com a noção perfeita da dimensão simbólica de cada um e a consciência das suas divergências, concordaram que a breve prazo a FPLN precisaria de centralizar a direção da luta e estabelecer um comando, com um estado-maior em Roma ou Argel.

De regresso ao Brasil, encontrou o ambiente na Associação General Humberto Delgado de cortar à faca. Luís Carvalhal evitava-o, desde fevereiro. A sua aproximação ao PCP, as suas posições a favor das independências em África bem como a sua vontade de deixar rapidamente o Brasil para ir dirigir um órgão revolucionário que incluía os comunistas fizeram mossa no relacionamento.

O exílio estava a tornar-se extremamente duro e na correspondência para a mulher (lida pela PIDE) deixa-o transparecer, chegando a confessar que a fé na revolução iminente o ajudava a aguentar. Delgado estava ansioso por sair do Brasil e torna a pensar num regresso a Portugal para se entregar. Pediu mesmo um passaporte português no consulado, a pretexto de se ir defender no julgamento da revolta de Beja.

Mário de Carvalho, o seu representante na capital italiana e que urdia com a PIDE a conspiração que atraiu Delgado para a cilada mortal, tentava atraí-lo para Roma. Mas Delgado dizia-lhe que só iria para Itália se tivesse visto de permanência.

A hipótese de Argel começou a parecer-lhe mais realista e segura depois de Ahmed Ben Bella, presidente argelino, lhe responder a uma carta que ele enviara em Setembro de 1963 a pedir-lhe emprego. O governo da recém, independente Argélia garantiu-lhe facilidades, mas não dinheiro para viagens e manutenção. Por coincidência, quatro portugueses exilados na Argélia, escreveram-lhe, semanas depois, exortando-o a instalar-se naquele país, garantindo passagens e que se cotizando-se, para que ele não carecesse de apoio financeiro. Face a isso e às dificuldades de obter isto para Itália, foi fácil optar por Argel.

Os brasileiros também não se fizeram rogados em darem-lhe um «passaporte amarelo», desde que ele não regressasse ao Brasil.

Hospitalizado em Praga

Foi em dezembro que saiu do país e o destino foi novamente Praga. Desta vez para participar nos trabalhos da 2.ª conferência da FPLN, cujos trabalhos entraram pelo Natal adentro e terminaram já depois do Ano Novo. No encontro assistiu-se a crispações, prenunciando as incompatibilidades que levariam, meses depois, à rutura entre Delgado e o grupo de Piteira Santos. Mas também se tomaram resoluções, como a criação de um organismo de cúpula da FPLN, a Junta Revolucionária Portuguesa, a ser presidida por Delgado. Mas nela também se sentiram os prenúncios de incompatibilidades que levariam, meses depois, à rutura entre Delgado e o grupo de Piteira Santos, que se instituíra já como o «Bureau de Argel».

Dadas as sequelas da cirurgia Delgado precisava de cuidados médicos e foi, por influência de Cunhal, internado num hospital da nomenklatura do PC checoslovaco, onde o general seria operado a 21 de janeiro de 1964. Menos de duas semanas depois, novas complicações, desta vez intestinais, obrigaram a uma segunda intervenção cirúrgica. A convalescença foi morosa. Mário Soares e Ben Bella visitaram-no. O presidente argelino, além de cravos vermelhos levou-lhe a promessa de o receber com honras de chefe de Estado, quando chegasse a Argel. E recebeu-as ao aterrar na capital desse país, a 27 de junho de 1964 para encabeçar o órgão de cúpula da FPLN.

A sua voz atravessou rapidamente o mediterrâneo, através de emissões de rádio captadas clandestinamente em Portugal e ecoava: «Eu voltarei! Eu voltarei!», como prometia nos pequenos selos com a sua efígie distribuídos clandestinamente após a revolta de Beja. Apelava a atos individuais e coletivos de sedição e de sabotagem, para enfraquecer o inimigo até ao dia do embate, que previa próximo. A proximidade geográfica pode ser altamente subversiva.

Mas também aqui a lua-de-mel foi de curta e o embate duro. O meio oposicionista português era dominado pela intriga. Quando o general desembarca na capital já está em curso uma luta fratricida pela hegemonia, na oposição entre sobretudo, delgadistas, PCP, grupos maoístas que se formam à esquerda do PCP, moderados e conservadores.

As dissensões eram idênticas às do Brasil, mas mais acirradas, no seio de uma emigração política mais recente, mais jovem, mais politizada. A vontade de ação imediata manifestada por Humberto Delgado aborreceu uns e atraiu outros, entre eles os maoístas. Bastaram poucas semanas para Delgado se incompatibilizar e entrar em guerra aberta com o grupo de Piteira Santos, que o denegria como autoritário, militarista e irascível.

A rutura definitiva ocorreu no início de agosto e Delgado criou a sua própria organização, a Frente Portuguesa de Libertação Nacional, que usou a mesma sigla.

Em outubro deslocou-se clandestinamente a Itália, usando um passaporte diplomático falso em nome de Lorenzo Ibañez, na esperança de se encontrar com supostos militares anti-salazaristas que ele não sabia fazerem parte da intriga que Mário de Carvalho e a PIDE urdiam à sua volta. Regressou a Argel um mês depois. Para voltar a sair em Dezembro, novamente com a identidade de Ibañez para uma viagem que o levará ainda a Londres e à morte.