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Aqui conta-se a façanha de Gastão Ferraz, o português que, em 1942, podia ter comprometido o desembarque Aliado no Norte de África e revelam-se as razões que levaram os nazis a infiltrarem-se nos bacalhoeiros portugueses. Tudo aconteceu com a complacência (se não com o apoio direto) de uma das mais destacadas figuras do salazarismo: Henrique Tenreiro

É um medo maior aquele que no outono de 1942 dá conta do espírito dos tripulantes do Gil Eanes. O que lhes eriça os pelos da nuca não é a rápida descida das temperaturas, o vento cortante do Ártico ou o perigo de icebergues traiçoeiros ao largo da Gronelândia. É a certeza de percorrerem um mar infestado pelos mais ferozes monstros marinhos que a primeira metade do século XX conheceu: os submarinos do III Reich.

A notícia do afundamento do lugre a motor Delães, a 11 de Setembro, quando navegava por aquelas bandas, disseminou o pavor no navio de apoio à frota bacalhoeira. Esse incidente, felizmente sem vítimas mortais, evocava outro pior: o caso Maria da Glória, também ele alvo do ataque de um submarino furtivo em que pereceram 36 dos 44 tripulantes.

Gastao Ferraz radiotelegrafista do navio Gil Eanes
Foto: Fundação Portugal Telecom

Viessem os torpedos que viessem, o radiotelegrafista é que não havia de ser apanhado desprevenido. Por isso, quando iam a passar ao largo do Cabo Farewell, Gastão Ferraz até dormiu vestido. «Nunca sabemos quando chega a nossa vez», dirá dali a dias a um oficial de segurança, em S. João da Terra Nova, no Canadá.

Os torpedos podiam povoar os pesadelos dos tripulantes. Mas não eram eles a principal razão da ansiedade de Ferraz. Deles já tivera a sua conta 25 anos antes, durante a I Guerra Mundial: dois dos navios da marinha mercante em que servira foram parar ao fundo do mar, o que lhe valeu duas condecorações no final do conflito. Gastão Crawford de Freitas Ferraz, 47 anos, radiotelegrafista de primeira classe, morador na Rua Morais Soares, em Lisboa, arquitetara a sua própria angústia ao aceitar, em março desse ano, espiar para os alemães. Agora sentia os ingleses a apertarem o cerco à sua volta.

Os serviços britânicos de contra-espionagem (MI5) sabiam pelo menos desde julho que o Gil Eanes transportava um agente nazi, mas só a 28 de Outubro é que conseguiram ligar as peças do puzzle e apontar o dedo, sem margem para dúvidas, na sua direção.

A FROTA SUSPEITA

O dossiê Ferraz, que o MI5 manteve secreto até março de 2009, não trata apenas de um radiotelegrafista que se vendeu aos alemães por 1 500 escudos por mês. Revela o uso intenso da frota bacalhoeira portuguesa pela secreta naval nazi, com o objetivo de obter informações sobre o tráfego marítimo aliado e para colmatar a sua falta de estações meteorológicas no Noroeste do Atlântico.

«O uso de agentes a bordo de navios de pesca como estes portugueses é uma das características operacionais dos serviços secretos navais alemães em Lisboa», escrevia, em Setembro de 1942, o brigadeiro David Petrie, à altura director-geral do MI5.

Quem controlava a frota era o Grémio dos Armadores dos Navios de Pesca do Bacalhau (GANPB). E quem controlava o Grémio era o comandante Henrique Tenreiro (uma espécie de ministro putativo das pescas), que no início da campanha garantira ao adido naval inglês em Lisboa que os barcos portugueses não iriam violar a neutralidade.

Contudo, nesse ano, as investigações britânicas forneciam fundamento para desconfiar que uma dúzia de navios, entre os 47 que saíram para os bancos da Terra Nova e Gronelândia, transportavam agentes portugueses ao serviço dos alemães – ou seja, uma em cada quatro embarcações.

Os bancos de pesca do Noroeste do Atlântico frequentados pela frota portuguesa situavam-se precisamente nas principais rotas do tráfego marítimo entre a América do Norte e a Grã-Bretanha – o sítio ideal para observar e reportar o tráfego naval Aliado. A neutralidade portuguesa fornecia o disfarce ideal para a acção dos agentes do Eixo, como Gastão Ferraz, radiotelegrafista do navio mais importante da frota, o Gil Eanes

O que tornava a frota portuguesa perigosa para os Aliados era o facto de os bancos de pesca da Terra Nova e da Gronelândia se situarem exatamente nas rotas dos comboios de navios (de mercadorias e de tropas) que atravessavam o Atlântico entre os EUA e a Grã-Bretanha. O Gil Eanes gozava de uma liberdade quase absoluta, fazendo vaivém entre os navios, que abastecia e apoiava com cuidados médicos, e fazendo escala em portos numa extensão que ia da Virgínia, no Sul dos EUA, ao Círculo Polar Ártico.

O ENVOLVIMENTO DE TENREIRO

Nascido (em Cabo Verde) no seio de uma família influente da Madeira, Ferraz era, sem dúvida, um homem do regime, tendo desempenhado o cargo de presidente do Sindicato Nacional dos Radiotelegrafistas, Telegrafistas e Ofícios Correlativos, numa época em que as direções sindicais eram homologadas pelo governo de Salazar.

Gastão Ferraz sabia mover as suas influências e chegou a ter o subsecretário de Estado das Corporações, Joaquim Trigo de Negreiros, a interceder por ele junto da administração da Marconi, onde trabalhou durante 17 anos, para que não fosse transferido de Lisboa para o Porto. Foi oficial (comandante de Lança) da Legião Portuguesa, cujo comando o considerou, já depois da sua captura, um «dedicado legionário e desde há muito tempo bom nacionalista» que se mostrava «anglófobo, mas sempre anticomunista».

Recorde-se que, na época, a Legião era a única instituição do Estado Novo que, ao arrepio da política de neutralidade de Salazar, assumia publicamente posições germanófilas. E, pelo menos até 1942, colaborou estreitamente com as secretas alemãs, conforme se pode concluir da leitura da documentação depositada na Torre do Tombo. O MI5 considerou Ferraz um protegido de Henrique Tenreiro. Este não só tutelava as pescas, e consequentemente os serviços de transmissões dos navios, como também pertencia à Junta Central da Legião. O historiador Álvaro Garrido, que biografou Tenreiro, diz que ele personificava os serviços de informações da milícia do regime.

No início de Março de 1942, a situação de Ferraz na Marconi começou a tornar-se insustentável, na sequência de um processo disciplinar em que foi despromovido. Na origem do conflito esteve um desaguisado com o seu superior hierárquico, que Ferraz denunciara na Legião como estando a trabalhar para o Secret Intelligence Service britânico (SIS, ou MI6).

É por essa altura que Tenreiro o chama ao seu gabinete no Cais do Sodré. Diz-lhe saber dos seus problemas na Marconi e oferece-lhe o cargo de primeiro radiotelegrafista no Gil Eanes – o quarto posto na hierarquia do navio.

Segundo informação chegada à contraespionagem britânica, Tenreiro ter-lhe-á prometido que, no fim da campanha do bacalhau, o colocaria como diretor dos serviços de radioletegrafia do Grémio. Na confissão que fará aos britânicos após a sua detenção, Ferraz não confirma essa promessa.

O certo é que, um dia depois da reunião com Tenreiro, estando Ferraz em casa, bateu-lhe à porta um homem que ele conhecia da Marconi. Sem perder tempo, Fernando Sepúlveda Rodrigues disse-lhe estar a trabalhar para os alemães, saber que ele acabava de ser contratado para o Gil Eanes e que um tal Schmidt queria falar-lhe. Sobre como Rodrigues teve conhecimento da sua contratação só se pode especular. Mas sabe-se, através do próprio Ferraz, que ainda não tinha comentado com ninguém o seu encontro com Tenreiro no Grémio. A conversa ficara entre ambos.

Não há provas cabais que possam relacionar Tenreiro com a espionagem alemã. «Mas existem indícios fortes de que prestou serviços ao Estado nazi e ao esforço de guerra alemão», declarou Álvaro Garrido, o investigador que durante alguns anos foi diretor do Museu Marítimo de Ílhavo.

Tenreiro tornou-se suspeito aos olhos dos ingleses: estava conotado com a ala radical do regime, fora condecorado pela Alemanha nazi, assistira à tomada de posse de Hitler e assumia-se publicamente como germanófilo. Além disso, deu cobertura a vários casos de espionagem a bordo de bacalhoeiros. Dificilmente teria ignorado o que se passava. «Por essa altura, se ainda não era o patrão das pescas, era pelo menos o ‘santo padroeiro’ das campanhas do bacalhau», destaca Garrido.

A MISSÃO

Ferraz embarcou nessa Primavera com uma missão atribuída por Ernst Schmidt, chefe de um dos ramos da espionagem naval nazi. Os alemães queriam que ele transmitisse informações sobre os movimentos navais aliados (o número e o tipo de embarcações avistadas; tratava-se de navios de guerra ou mercantes? Transportavam tropas? Levavam aviões?) bem como o estado do tempo.

O espião português integrou o que um relatório dos serviços secretos norte-americanos (The US Hunt For Axis Agent Radios, desclassificado em 1995), chama «a rede portuguesa» – uma teia clandestina de comunicações transoceânicas que abrangia as colónias, as ilhas adjacentes e o território continental. O centro nevrálgico dessa atividade era uma estação-rádio instalada, no Estoril, em duas moradias contíguas.

O Gil Eanes deixara a Terra Nova a 26 de outubro para regressar a Portugal. A 1 de novembro navega a norte dos Açores, na posição 044º 00′ N – 023º 30′ W, quando pelas 21 horas (de Greenwich) é intercetado pelo contratorpedeiro britânico HMS Oriby. Um grupo de militares ingleses armados entra no navio português, revista-o demoradamente, interroga a tripulação e leva Ferraz para o Oriby. O Gil Eanes é autorizado a continuar viagem, mas uma guarda armada permanecerá no navio até alcançar águas territoriais portuguesas. Além disso, o ritmo da marcha é abrandado de forma a que o navio não possa chegar a Portugal antes de 9 de Novembro.

O cuidado dos britânicos com as datas deveu-se a razões operacionais. Quando foi abordado, o Gil Eanes estava a poucas horas de se cruzar com o comboio militar da Operação Torch, que os aliados pretendiam manter em segredo a qualquer custo. Em causa estava a possibilidade de Ferraz denunciar aos alemães as movimentações que levariam, a 8 de Novembro, ao desembarque aliado em Marrocos, Argélia e Tunísia, naquela que foi a primeira operação anglo-americana envolvendo simultaneamente forças navais, aéreas e terrestres e que representou um ponto de viragem na guerra, numa altura em que as forças do Eixo ainda pareciam estar em vantagem. Na opinião de académicos como o historiador oficial do MI5, Christopher Andrews, se Ferraz tivesse conseguido cumprir a sua missão, o rumo da guerra poderia ter sido outro.

AO GATO E AO RATO

Até ser detido, Ferraz entreteve a contraespionagem britânica numa espécie de jogo do gato e do rato em que ele desempenhava o papel de roedor habilidoso a trocar as voltas ao felino. E isso até no próprio momento da captura. Vendo o navio britânico aproximar-se e a fazer sinais para o Gil Eanes parar, o português atirou borda fora os códigos que usava para as comunicações com os alemães.

Navio Gil Eannes, no verão de 1942. Imagem captada por um avião da contraespionagem aliada quando já se sabia que havia um espião a bordo
Foto: Museu Maritimo de Ilhavo

Durante a campanha do bacalhau, que iniciara em abril e terminou em outubro, o Gil Eanes fora várias vezes abordado pela guarda costeira canadiana. E cada vez que aportava em S. João era revistado e a sua tripulação interrogada. Ferraz conseguiu sempre iludir os inquiridores e desviar as atenções de si para o seu subordinado, o segundo radiotelegrafista, Joaquim Matos Ribeiro. Sabia usar a palavra: dizia que não seria ele, que já sofrera dois naufrágios por causa dos alemães, a entregar navios às alcateias submarinas dos nazis. E era convincente ao afirmá-lo.

«Pareceu-me inimaginável que alguém que foi torpedeado pelos alemães, escapando apenas com a vida, viesse a trabalhar para eles», confessaria mais tarde o tenente-coronel Guild, o oficial de segurança (representante do MI5) em S. João. O português revelara uma autoconfiança espantosa e até lhe mostrara o corte na cabeça que resultara de um daqueles ataques durante I Guerra.

A documentação disponível sugere que os altos responsáveis do MI5 terão ponderado o abalroamento do navio, fazendo-o desaparecer sem deixar vestígios. Na sequência da sua captura em alto mar, Ferraz foi levado para o Camp 020, um centro de detenção para espiões nos arredores de Londres pelo qual, até ao final da guerra, passaram nove cidadãos portugueses (num total de mais de 500 detidos).

E ali ficou preso sem julgamento até Setembro de 1945. Era impossível acusá-lo formalmente para o levar a tribunal. É que Ferraz tinha sido desmascarado por uma fonte ultra-secreta que não podia, em circunstância alguma, ser revelada, e que nos relatórios é sempre mencionada como uma most secret source. Mesmo na comunidade britânica de informações, apenas um grupo muitíssimo restrito sabia que se tratava de um sistema que intercetava e decifrava as comunicações rádio dos alemães, em uso desde 1940, em que se utilizavam equipamentos como as máquinas Enigma.

Tratava-se de uma fonte de informação tão valiosa que era preferível deixar escapar um espião a revelá-la, o que fez que os investigadores britânicos tivessem vivido momentos de frustração, já que contra Ferraz não havia qualquer outra prova – ele deitara os códigos ao oceano. É que abordar em alto-mar um navio civil de um país neutro e retirar de lá um tripulante sem apresentar provas podia criar um incidente diplomático e comprometer os arranjos secretos com Portugal em torno do abastecimento de embarcações britânicas nos Açores e do estabelecimento de bases aliadas no arquipélago. Era preciso que Ferraz confessasse. E ele fê-lo, dizendo que comunicara apenas duas vezes com o posto do Estoril e que nunca denunciara qualquer navio.

O embaraço que o caso Ferraz (e outros) causou nesse ano ao regime contribuiu para que, em 1943, Salazar começasse a impor restrições à atividade da espionagem alemã em Portugal, que até ai andara mais ou menos de rédea solta. Serviu também para disciplinar a frota bacalhoeira, que em 1943 passou a navegar em comboios.

O incidente do radiotelegrafista do Gil Eanes acrescentou um novo medo aos que já existiam antes. Com a nova campanha a começar em maio de 1943, em março ainda faltava contratar mais de um terço dos comandantes para os bacalhoeiros, lê-se num relatório dos serviços de informações da Legião Portuguesa. O Grémio estava com dificuldades em contratá-los, «pois temem que os venham buscar a bordo como já se tem feito com outros tripulantes portugueses».

(Este texto foi originalmente escrito para a revista Visão História, 15 de abril de 2010)