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PERDIDO NA FLANDRES
A perícia no manejo da sua Luisinha e os ensinamentos da vida do campo, sobretudo da caça, que permitem que um homem não perca o norte, mesmo em território desconhecido, revelaram-se fundamentais, sobretudo quando Milhais teve de sair da trincheira.
Sabia que com as Lewis podia obter um efeito de surpresa tão grande que o inimigo seria incapaz de identificar imediatamente a sua posição concreta. Mas também sabia que os alemães não se deixariam enganar eternamente. Eram muitos e estavam a aproximar-se.
Anos depois, Milhais contou aos seus próximos que um grupo de alemães, enviado para fazer um reconhecimento da sua posição, chegou mesmo a aproximar-se disfarçado com fardamento de portugueses que tinham tombado. O transmontano apercebeu-se da marosca e varreu-os a tiro de metralha.
Mais tarde ou mais cedo ele teria de sair dali. A Lewis é uma arma bastante portátil que permite à sua guarnição (ou atirador único) mudar rapidamente de alvo e de posição.

Soldados portugueses e britânicos capturados pelos alemães (Fonte: Bundesarchiv)

Soldados portugueses e britânicos capturados pelos alemães (Fonte: Bundesarchiv)

Milhais recolheu, então, munições de que os camaradas mortos já não precisavam e pôs-se a caminho pela região pantanosa. Como mantimentos dispunha de umas amêndoas da Páscoa que a família lhe enviara.
Dias antes, relata Guilhermino Pires, o Malha-Vacas ainda se terá virado para o Murça e dito:

– Guarda bem essas amêndoas que ainda te vão fazer falta.
– Tomara que não me faltem amêndoas para esta menina [a metralhadora] – respondeu.

Andou perdido pela planície devastada e alagada. Escondeu-se nas ruínas, nos drenos cheios de água ou nas carcaças de cavalos, para evitar as tropas alemãs.
Mas, quando se proporcionava, procurava a melhor máscara para emboscá-las e varrê-las em leque. Foi assim, escondido, que salvou um grupo de escoceses de serem capturados, disparando sobre os alemães que o perseguiam.
Andou nisto de 9 a 13 de Abril. Sem abrigo, sem alimento, sem água e sem dormir, a remexer nos bolsos dos camaradas mortos à procura de munições ou, simplesmente, fechando-lhe os olhos.
No último dia, salva de se afogar nas águas do Lys um major escocês que fora feito prisioneiro pelos alemães mas conseguira escapar. Partilha com ele as suas últimas amêndoas e este ajuda-o a orientar-se para encontrar o acampamento português. Terá sido também nesse último dia do seu périplo que, segundo o registo escrito de uma filha, Maria Adelaide Milhais, resgatou uma criança dos escombros de uma casa destruída.

O MURÇA PASSA A MILHÕES
Ao chegar, exausto e coberto de lama, ao posto dos portugueses, a sua fama já o precedera. Os soldados escoceses tinham feito constar aos seus aliados que estava a caminho alguém que salvara vários dos seus e havia também um relato do major. O seu anterior comandante de batalhão, o então major João Maria Ferreira do Amaral, chamou-o para o ouvir pessoalmente.
E, reza a lenda, ter-lhe-á dito:

– Chamas-te Milhais, mas vales milhões.

A alcunha pegou e não foi só na tropa, onde o Murça passou a Milhões. Transitou até para alguma documentação oficial, como o decreto de 31 de Agosto de 1918, confirmando a sua condecoração com a Torre e Espada, onde é dado como «Aníbal Augusto Milhões».
«O meu pai nunca mudou o apelido para Milhões», esclarece a filha mais nova, Leonida (tia da homónima anteriormente citada). Mesmo assim, aquando do registo, vários dos filhos de Aníbal Augusto e Teresa Milhais ficaram com a alcunha do pai como apelido. «Dependia da pessoa que estava no registo.» Celebrado como herói, Milhões regressa a Valongo em 1919, casa e tem filhos ao todo teve 13, dos quais 11 rapazes. Mas só cinco filhos e as duas filhas lhe sobreviveram.

DE VALONGO PARA O BRASIL
Começou por ganhar a vida com «bois ao ganho» isto é, alimentava, tratava e utilizava os animais que outra pessoa com mais dinheiro comprara; quando eram revendidos, dividia-se o lucro. Revelou-se um mestre nas enxertias e na matança dos porcos, para as quais era permanentemente chamado.
A vida no campo era dura e pobre. Tentou emigrar para o Brasil, onde chegou em Março de 1928 tinha três filhos e vinha outro a caminho. Queria só ganhar o suficiente para uma casinha na sua aldeia. Chegado lá, os conterrâneos de Murça ficaram indignados: um herói nacional não podia trabalhar fora da sua Pátria. Fizeram uma coleta que rendeu 547 escudos, pagaram-lhe a viagem e, em agosto, mandaram-no embora.
Milhões manifestou muitas vezes o seu desencanto com essa situação. Regressado à aldeia, construiu a sua casinha e tornou-se uma figura respeitada. Pediam-lhe conselhos e para ser padrinho dos filhos.
A Pátria não se esqueceu do seu cavaleiro da Ordem de Torre e Espada: exibiu-o, antes e durante o Estado Novo, em cerimónias em que era preciso exaltar os valores nacionais. E lá aparecia ele com a farda da Legião Portuguesa e as suas seis condecorações ao peito, fosse em Lisboa, no Porto, na Batalha ou em Castro Verde.
O reconhecimento material da nação resumiu-se a uma pensão que se manteve nos 15 escudos por mês, pelo menos até o seu quinto filho ir à inspeção militar, no início dos anos 50. Quando morreu, a 3 de Junho de 1970, aos 75 anos, as suas medalhas conquistadas no campo da glória valiam-lhe pouco mais de mil escudos mensais.
A neta Leonida diz que não foi pelas medalhas e honrarias que o avô que conheceu de olhos vivazes, a cantarolar muito e a tocar gaita-de-beiços, se deixou ficar em Huit Maisons: foi por uma grande consciência do dever e por um grande altruísmo.

(Artigo originalmente publicado na Visão-História, n.º 4, Fevereiro de 2009. Revisto e reeditado em maio de 2014)

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