Lisboa na rota da arte roubada

Durante a Guerra, os nazis pilharam tesouros artísticos de um valor incalculável. Parte do seu tráfico de arte passou por Portugal. Envolvido nesse comércio esteve Karl Buchholz, um marchand d'art alemão que, em 1943, fundou em Lisboa uma livraria-galeria, ainda hoje famosa

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Durante a Guerra, os nazis pilharam tesouros artísticos de um valor incalculável. Parte do seu tráfico de arte passou por Portugal. Envolvido nesse comércio esteve Karl Buchholz, um marchand d’art alemão que, em 1943, fundou em Lisboa uma livraria-galeria, ainda hoje famosa.

 

Durante uns momentos, apesar da forte suspeita que os levou a forçar a entrada a golpe de maçarico de oxiacetileno na casa-forte do navio, os homens do Contraband Control das Bermudas não quiseram acreditar com o que se lhes deparava, ali mesmo, à frente dos seus olhos. Hartford Montgomery Hyde, 33 anos, capitão do MI6 a desempenhar funções de oficial de segurança no arquipélago, nunca tinha visto nada assim. O luxuoso vapor transatlântico norte-americano Excalibur transportava, naquele dia 3 de outubro de 1940, muito mais do que refugiados a tentarem fugir da guerra e das perseguições na Europa.

Navegando sob a bandeira ainda neutra dos Estados Unidos, partira de Lisboa, a 25 de setembro, com uma carga preciosa, cujo destino seria Nova Iorque, não tivesse a embarcação sido intercetada pela Marinha de Guerra britânica e levada até à doca, em Hamilton, capital das Bermudas. Aí, uma equipa de militares e agentes aduaneiros da Grã-Bretanha subiu ao navio, cujo comandante lhes recusou a abertura da casa-forte, onde estavam guardadas 633 obras de arte. Entre elas, 273 quadros a óleo e mais de uma centena de aguarelas de Pierre-Auguste Renoir, várias dezenas de trabalhos de Paul Cézanne e também muitos Gauguins e alguns Picassos, Manets e Monets. Um tesouro incalculável.

Tudo obras que tinham pertencido à famosa coleção Vollard, já na época avaliada em milhões, que, segundo acreditavam à época as autoridades militares britânicas, haviam sido consignadas pelo Governo colaboracionista de Vichy ao obscuro marchand francês Martin Fabiani. «Havia razões para crer que Fabiani atuava sob instruções alemãs e tencionava vender a coleção, a fim de angariar divisas em dólares para Hitler», escreveu Montegomery Hyde, no início da década de 50 do século passado, em Room 3603, um livro de memórias prefaciado pelo célebre espião, jornalista e escritor Ian Fleming.

Foi pouco depois da ocupação de uma parte de França pela Wehrmacht, e da instalação de um governo fantoche em Vichy, que Fabiano atravessou os Pirenéus. Chegou a Lisboa com a sua preciosa carga em setembro de 1940, embarcando-a no Excalibur, para ser vendida em Nova Iorque.

No início do outono desse ano, a capital portuguesa fervilhava. De um momento para o outro, com o avanço da guerra, os hotéis da cidade ficaram a abarrotar. A provinciana e acanhada Lisboa encheu-se de refugiados, diplomatas e espiões que a converterem numa Babel multilingue.

A sua posição geográfica, as facilidades de expedição marítima e a existência de matérias-primas como o volfrâmio, tornavam o País numa placa giratória para todo o tipo de tráficos lícitos e ilícitos, incluindo o de arte. Em Portugal, muitas obras trocaram de mãos. Algumas eram propriedade legítima de refugiados que procuravam transformá-las em dinheiro com a intenção de garantirem uma passagem para os Estados Unidos. Mas, noutros casos, tratava-se de arte pilhada pelos nazis nos países ocupados e confiscada a galeristas e artistas alemães, por serem judeus ou não caberem no conceito de arte preconizado por Adolf Hitler, ele próprio um pintor falhado.

«A arte roubada pelos nazis passou seguramente por Portugal», disse à VISÃO o historiador de arte americano Jonathan Petropoulos, que investiga o assunto há duas décadas e integrou a Comissão Presidencial Consultiva sobre os Bens do Holocausto, criada, em 1998, pelo então Presidente dos Estados Unidos Bill Clinton.

Portugal foi palco desse tráfico, à semelhança de outros países que se mantiveram neutros no conflito, como a Suíça, a Espanha e alguns da América Latina. Nos arquivos históricos dos serviços secretos aliados há bastante documentação sobre o assunto, onde, à cabeça da lista dos suspeitos, figura um nome bem conhecido das elites intelectuais portuguesas: Karl Buchholz, marchand e fundador, em 1943, de uma livraria-galeria em Lisboa.

O ‘marchand’ do Reich

Inscrito na Câmara do Reich para as Belas-Artes, o galerista e livreiro Karl Buchholz foi, juntamente com os especialistas Ferdinand Möller, Bernard Böhmer e Hildebrand Gurlitt, um dos quatro marchands autorizados pelo regime nazi, na segunda metade dos anos trinta, a comercializar obras tidas por Hitler como de «arte degenerada», e que, por isso, foram confiscadas a artistas e galeristas alemães ou retiradas dos museus públicos, em 1937 e 1938.

Um filho de Hildebrand Gurlitt tornar-se-ia o protagonista do caso que, no outono de 2013, apaixonou a opinião pública mundial com a notícia de que, no seu apartamento, em Munique, tinham sido encontradas pelas autoridades aduaneiras 1 500 obras, entre elas algumas de Pablo Picasso, Henri Matisse e Marc Chagall.

«Karl Buchholz e Hildebrand Gurlitt eram idênticos em muitos aspetos e, diria, iguais em termos de importância», comenta Petropoulos, que centra a sua investigação no papel dos peritos em arte que os nazis usaram como homens de mão para executar os seus programas criminosos.

As semelhanças são, de facto, muitas.

Ambos se estabeleceram como marchands, durante a República de Weimar (em 1924, no caso de Buchholz), tornando-se proponentes da arte moderna; ambos puderam continuar o seu trabalho, depois da tomada do poder por Hitler; ambos estiveram entre os quatro especialistas autorizados a vender «arte degenerada», confiscada ou retirada dos museus pelos nazis; ambos venderam, antes e durante o conflito de 1939-1945, obras de arte, para angariarem divisas necessárias ao esforço de guerra do regime nazi; ambos escaparam a processos judiciais, depois da guerra.

«Gurlitt comprou arte para Hitler pessoalmente e para o Führermuseum [Museu do Führer, que o ditador quis criar em Linz, na Áustria]», afirma Petropoulos, numa troca de e-mails com a VISÃO. «E Buchholz também fez negócios com líderes nazis.» Entre outras atividades, ajudou o Ministério dos Negócios Estrangeiros, liderado por Joachim Ribbentrop, a transportar propriedade cultural. E, acredita o historiador, vendeu arte a altos-quadros do Partido Nacional Socialista. «Buchholz não foi um agente de Hitler, mas cooperou com as autoridades nazis», salienta Petropoulos.

Além do gabinete de Ribbentrop, o marchand, que, em 1943, havia de se instalar em Lisboa, mantinha também uma relação estreitíssima com o Ministério da Propaganda e Esclarecimento do Povo, de Joseph Goebbels.

Foi, aliás, com este ministério, que, a 5 de maio de 1939, firmou um contrato que lhe garantia uma comissão de 25% sobre o produto das vendas.

Um sócio em Nova Iorque

Para Buchholz, a venda de arte confiscada não começou com esse contrato. Já em 1936, ele e um empregado seu, Curt Valentin, organizaram-se no sentido de montar um ramo do negócio nos Estados Unidos, onde, no ano seguinte, abriram a Buchholz Galery, na 46.ª Rua de Manhattan.

Estava-se no apogeu da «arianização» das galerias de arte alemãs e Curt Valentin era judeu. Mas não um judeu qualquer. Gozava de um estatuto especial, tendo sido autorizado a continuar no negócio com Buchholz de venda de «arte degenerada» confiscada pelo Estado nazi.

As leis do Reich excluíam os judeus da vida económica, mas permitiam algumas exceções, desde que as atividades desses judeus beneficiassem o Terceiro Reich.

E Valentin era um Divisenjude, um judeu que trazia divisas. Depois de se instalar em Nova Iorque, continuou a fazer os seus negócios com o Governo nazi e, com esse fim, terá regressado, repetidas vezes, à Alemanha.

Quando embarcou para a América, em janeiro de 1937, Valentin levou na bagagem várias pinturas, desenhos e esculturas da Galeria Buchholz de Berlim, segundo escreve Godula Buchholz (filha de Karl), numa biografia do pai.

Através de Valentin, Buchholz rapidamente se tornou um assíduo fornecedor do Museum of Modern Art (MoMA) nova-iorquino.

«Curt Valentin serviu, de uma maneira notável, como canal da “arte degenerada” que o seu sócio, Karl Buchholz, lhe enviava» escreve Petropoulos num artigo intitulado Bridges from the Reich, disponível no jornal eletrónico especializado alemão Kunstgeschichte (kunstgeschichte-ejournal.net).

Valentin fez negócios com os nazis, pelo menos até à primavera de 1941. Nessa altura, já tinham chegado notícias alarmantes aos comandos aliados. Os relatórios dos serviços secretos britânicos e norte-americanos começavam a mencionar o contributo para o financiamento do esforço de guerra nazi da venda de objetos de arte confiscados na Alemanha ou pilhados nos países ocupados pela Wehrmacht.

Era o caso dos relatórios da Unidade de Investigação de Arte Roubada (ALIU, na sigla americana), criada em 1944, pelo Gabinete de Serviços Estratégicos (OSS), o precursor da CIA.

Buchholz estava de boas relações com o regime. O que, confirmou Petropoulos nas suas pesquisas em arquivos alemães, o levava a subscrever cartas endereçadas ao Ministério da Propaganda com um «Saúda-o respeitosamente. Heil Hitler!», antes da assinatura. Apesar de, na época, se usarem outras formas de saudação nacionalista mais neutras, aceitáveis aos olhos dos nazis, o marchand optou por usar aquela que mais o identificava com o regime.

Isso não significa que fosse membro do partido nacional-socialista. Petropoulos garante que não era, embora outros autores, como Malcolm Goldstein e Barbara Copeland Buenger, afirmem o contrário.

A sua filha conta que, em 1942, a toda poderosa milícia armada do partido nazi, as SS, lhe cancelou o contrato com o Governo.

Além disso, a sua casa foi revistada e Buchholz acabou por ser expulso da Câmara do Reich para as Belas-Artes, deixando de poder exercer a sua profissão na Alemanha.

Para Lisboa

É na sequência destes acontecimentos que Buchholz chega a Lisboa, em 1943, onde, no n.º 50 da Avenida da Liberdade, abre uma livraria-galeria. Manteve o estabelecimento em Berlim e outro idêntico em Bucareste, que criara em 1940. Dispunha, assim, de uma rede que abarcava toda a Europa, incluindo a capital portuguesa, tida como o último porto, no velho continente, antes da América. E, através de Curt Valentin, estava com um pé nos EUA.

As relações com alguns setores do regime azedaram, mas o marchand manteve os contactos bem oleados com outros, sobretudo no Ministério dos Negócios Estrangeiros, de cujo apoio continuou a beneficiar.

No dia 6 de outubro de 1943, no trajeto entre Berlim e Zurique (outra placa giratória da arte saqueada), escreveu uma carta à mulher: «Ontem consegui, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros, enviar para Lisboa 23 caixotes cheios de bons livros e também alguns bronzes e cinco com livros de arte para Bucareste.» Na perspetiva do já citado historiador, isso sugere relações de trabalho de grande proximidade.

Os serviços secretos norte-americanos começaram a desconfiar de Buchholz o mais tardar depois de, em janeiro de 1945, uma equipa da secreta americana ter-se deslocado a Portugal e a Espanha, para investigar o paradeiro de bens de vítimas dos nazis, no âmbito do programa Safehaven (refúgio), cujo objetivo era o de resgatar o que fora saqueado pelos alemães.

Num dos relatórios dessa investigação, datado de agosto desse mesmo ano, lê-se que «a nova livraria alemã, Avenida da Liberdade, 50, Lisboa, é suspeita de servir de disfarce para interesses nazis». Aí, dá-se conta de que Buchholz se associou, no negócio, a um «português» chamado Lehrfeld, e que terá trazido da Alemanha livros num valor de meio milhão de marcos, além de quadros e esculturas que vendeu por preços elevados.

Outro documento menciona: «Aparentemente ele trabalha para Ribbentrop e Goebbels pessoalmente e eles estão a usá-lo como escoadouro para os seus bens.» Mas Buchholz não é o único suspeito. As listas englobam mais dez residentes no nosso país, entre galeristas e vendedores particulares. Desses, apenas três têm nomes portugueses.

Em muitos casos, os objetos de arte eram traficados para a América Latina, de onde, frequentemente, saíam para engrossar coleções nos EUA. A documentação da época cita testemunhos, como o do especialista Hans Schneider, segundo o qual «muitos dos quadros roubados foram enviados a partir de Espanha e Portugal para a Argentina».

No final da guerra, e 55 anos depois, os investigadores que vieram a Portugal encontraram numerosos indícios, rastos e vestígios da passagem de obras de arte roubadas ou confiscadas, mas nenhum objeto concreto. Isso não significa, porém, que não existam ainda numa ou outra coleção.

«É importante que os responsáveis dos museus investiguem as suas coleções», considera Petropoulos. «Se o fizerem, é muito provável que encontrem obras roubadas pelos nazis e que nunca foram devidamente restituídas.»

(Texto originalmente publicado na revista VISÃO, n.º 1080, de 14 de novembro de 2013. Reeditado em outubro de 2014)