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Num telegrama, enviado a 14 de dezembro a Vassalo e Silva, Salazar partilhou o seu estado de alma com os militares portugueses em Goa, dizendo-lhes sentir que «apenas pode haver soldados e marinheiros vitoriosos ou mortos» e exigindo «o sacrifício total» como a «única forma de Portugal se manter à altura das suas tradições e prestar o maior serviço ao futuro da Nação».

O PLANO SENTINELA

A estratégia portuguesa para resistir ao avanço indiano tinha sido definida no chamado Plano Sentinela, que dividia o território de Goa em quatro setores e que tinha como objetivo atrasar a progressão dos invasores. Mas o plano foi considerado impraticável por vários militares envolvidos (entre eles Carlos Azeredo e Carlos Alexandre Morais), dada a escassez de meios, como munições, minas anticarro e antipessoais ou equipamentos de comunicações. Isso, além das inconsistências do próprio documento.

O plano tinha anos e fora sucessivamente readaptado ao dispositivo que fora praticamente reduzido para metade no último ano de soberania portuguesa. E era incompleto, não incluindo, entre outros, capítulos sobre transmissões, barragens e travessia de cursos de água. E mais: segundo escreveu Morais, colocado como capitão do Exército em Goa, os planos de defesa da península de Mormugão, o administrativo-logístico e o de serviços de saúde nunca chegaram a ser conhecidos.

Basicamente, o plano consistia em duas componentes: numa primeira fase, ação retardadora do avanço indiano, e, numa segunda, a resistência final em posições na Península de Mormugão e na Ilha de Goa, onde iriam concentrar-se, respetivamente, um terço e dois terços dos efetivos.

Um dado assente é que vários oficiais com responsabilidades no comando militar manifestaram a sua discordância com alguns aspetos do plano. Em particular, a conceção do inimigo sobre o qual assentou, que «era verdadeiramente irrealista» na perspetiva de Morais, segundo o qual o projeto de defesa «minimizava de modo ridículo os meios do adversário».

«Só assim se explica a imposição de se ganharem um e até dois dias entre as sucessivas posições de retardamento executado pelas nossas tropas. Só por ironia tal seria admissível, face ao potencial do adversário», escreveu o antigo militar.

Segundo Morais, o desfecho da chamada «questão de Goa» foi a consequência lógica de um plano «concebido em termos chocantemente irrealistas».

AS INTENÇÕES DE SALAZAR

Havia muito que as intenções de Salazar para Goa estavam gizadas. O ditador (que, excetuando uma visita de juventude a Paris, nunca saíra do Portugal metropolitano a não ser para duas deslocações oficiais a Espanha e que nunca fora militar) nesse aspeto bastante claro num discurso proferido a 30 de novembro de 1954, perante a Assembleia Nacional.

«Depois de afagar as pedras das fortalezas de Diu ou Damão, orar na Igreja do Bom Jesus, abraçar os pés do apóstolo das Índias», proclamou o presidente do Conselho, «todo o português pode combater até ao último extremo contra dez ou contra mil, com a consciência de cumprir apenas um dever. Nem o caso seria novo nos anais da Índia».

Para Portugal, a posse de Goa era meramente simbólica, os próprios representantes do regime o admitiam. Mas Salazar não estava disposto a abrir mão dela, nem que isso significasse a morte de todo o contingente, vítimas civis e a destruição do património goês. Vassalo e Silva recebeu, aliás, instruções no sentido de praticar uma política de terra queimada.

Edifícios como o palácio do Governo, instalações portuárias e depósitos de combustível tinham de ser destruídos.

O general desobedeceu e acabou por limitar a destruição aos «objetivos de interesse militar, nomeadamente pontes», já que as populações do território não deviam ser privadas nem do património, que fazia parte da sua cultura, nem dos meios essenciais de sobrevivência.

Na perspetiva de Salazar, se os indianos queriam incorporar Goa teriam de tomá-la pela força das armas. O chefe do regime quis assim obrigar Nehru a um ato de violência, como aliás atestou o então ministro do Ultramar, Adriano Moreira, numa entrevista publicada no n.º 14 da VISÃO História. A ideia era denegrir a imagem internacional de pacifista que o líder indiano se esforçava por fazer passar na arena internacional.

No já referido telegrama de 14 de dezembro, codificado e classificado de «Muito Secreto», que dirigiu ao governador-geral do território, o chefe do Governo menciona que um ataque à colónia portuguesa desmentiria a política pacifista do primeiro-ministro indiano, «que a isso é muito sensível». E é muito explícito quanto aos seus intentos: «Ataque que venha a ser desferido contra Goa deve pretender, pela sua extrema violência, reduzir ao mínimo a duração da luta. Convém politicamente que esta se mantenha ao menos oito dias, período necessário para o Governo mobilizar, em último recurso, as instâncias internacionais.» O «sacrifício total» na Índia serviria para um golpe de propaganda destinado, além do mais, a aglutinar apoios internos para a guerra que, no início desse ano, estalara em África. O regime patrocinou a ida de inúmeros jornalistas estrangeiros a Goa para reportarem as barbaridades dos indianos. Uma ação brutal em Goa, como lembra Maria Manuel Stocker, além de pôr em causa o pacifismo de Nehru, podia também acusar a Índia de alinhamento com os soviéticos e colocar Portugal, na ribalta internacional, como vítima do comunismo, o que poderia sensibilizar as opiniões públicas e os governos ocidentais, tendo em vista o reconhecimento da especificidade do Ultramar português.

«Um sacrifício inútil», dirá anos depois Vassalo e Silva.

O governador-geral respondeu no dia 15 ao telegrama de Salazar, garantindo que, em Goa, os militares, conscientes da desproporção de forças, da fragilidade do dispositivo de defesa e da exiguidade de meios materiais e humanos, aguardavam firme e serenamente todas as ações.

«Poremos tudo e a própria vida ao serviço da Pátria», escreveu o general, «mas será prudente admitir que só um milagre poderá permitir o prolongamento da resistência tanto quanto se indica como necessário às diligências do Governo junto das instâncias internacionais».

Dias depois, os indianos atacaram com uma desproporção de forças de dez para um, o general resistiu o tempo que pôde e como pôde, assinando a rendição pelas 20 e 30 de dia 19 40 horas e 30 minutos depois de os indianos terem começado a flagelar território goês com a sua artilharia.

E se houve algum milagre foi um número de baixas irrisório e que várias fontes consultadas situam em torno dos 30 mortos de cada lado.

(Este trabalho foi originalmente publicado na revista Visão História, n.º 14, 1 de dezembro de 2011. Reeditado em dezembro de 2014)

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