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Nehru atribuiu a liderança da operação ao tenente-general Joyanto Nath Chaudhari, comandante-chefe do Comando Sul das tropas indianas, que batizou a operação de Vijay e escolheu a localidade de Belgaum, no Estado de Karnataka (a cerca de 50 quilómetros da fronteira goesa), para instalar o seu quartel-general.

O PLANO INDIANO

Para os indianos, a questão de Goa atingira o ponto de não-retorno da opção militar a partir de 18 de novembro, quando a guarnição portuguesa da ilha de Angediva abriu fogo sobre uma embarcação civil, ferindo um dos elementos da tripulação.

O incidente, que terá sido motivado pela suspeita de que iria proceder-se a um desembarque indiano com vista à ocupação daquela ilha, foi explorado até à exaustão pela imprensa e pela propaganda na Índia.

A força terrestre indiana consistia na 17.ª Divisão de infantaria (as brigadas 48 e 63) e na 50.ª Brigada Paraquedista Independente. Os paraquedistas penetrariam no território goês pelo Norte com o maior ataque a concentrar-se a leste.

As forças terrestres foram apoiadas por um dispositivo de engenharia militar, para assegurar uma progressão rápida das tropas indianas através dos obstáculos portugueses, colocados com o objetivo de atrasar o seu avanço. Segundo Praval, o material de engenharia envolvido podia garantir a construção rápida de 50 pontes.

Damão e Diu seriam atacados em simultâneo por dois grupos de batalhão.

A marinha de guerra indiana encarregar-se-ia de capturar a ilha de Angediva e de bloquear os portos de Mormugão, Pangim e Damão. Para o efeito, destacou o contratorpedeiro Rajut e a fragata antissubmarina Kirpan para a costa de Goa.

O ataque naval a Goa seria atribuído a quatro grupos de combate: um grupo de ação de superfície composto por cinco vasos de guerra; um grupo de porta-aviões (cinco navios), em torno do porta-aviões ligeiro Vikrant; um grupo de draga-minas (quatro navios) e um navio de apoio.

A missão da força aérea, com as suas bases em Pune e Sambra, seria destruir o aeroporto de Dambolim e a estação radionaval em Bambolim e dar apoio às forças terrestres.

O DISPOSITIVO PORTUGUÊS

Em meados dos anos 50, aquando da ocupação dos enclaves de Dadrá e Nagar-Aveli, o Governo de Lisboa determinou um aumento dos efetivos no Estado Português da Índia, com o número de tropas a atingir os 12 mil efetivos.

Mas esse dispositivo foi diminuindo ao longo dos tempos na medida em que se constatou que o perigo para os territórios sob administração portuguesa provinha essencialmente das invasões pacíficas satyagraha (civis desarmados) e das ações subversivas e terroristas de alguns grupos pró-integração, patrocinados direta ou indiretamente pelo Estado indiano. Resolveu-se, então reduzir o número de efetivos militares.

Quando, no final de 1960, o subsecretário de Estado do Exército, o então tenente-coronel Francisco Costa Gomes (futuro marechal e Presidente da República) visitou Goa, estavam nas fileiras portuguesas da Índia cerca de 6 mil homens. Propôs então uma redução, para perto de 3 500.

«Na Índia tanto fazia estarem 3 mil como o exército português inteiro», dirá Costa Gomes em 1995, numa entrevista a Maria Manuel Stocker, autora do livro Xequemate a Goa (Temas e Debates, 2005; reedição Texto, 2011). «Nem sequer uma defesa de cinco horas se podia fazer.» Quando Costa Gomes falou com Vassalo e Silva, este anuiu à sua proposta de redução de efetivos. Em Lisboa já parecia claro que, não havendo cedências da parte portuguesa, os indianos iriam avançar para uma ação armada.

MORTE NO AFONSO DE ALBUQUERQUE
Faltavam cinco minutos para as 7 horas de dia 18, quando a guarnição do aviso Afonso de Albuquerque ocupou os postos de combate. Ancorado ao largo do porto de Mormugão, avista, duas horas depois, três fragatas indianas, que aguardam ordens para tomar o porto e atacar o navio português. No navio as peças de artilharia são rapidamente guarnecidas, mas não há homens suficientes para as metralhadoras antiaéreas.
A bordo vivem-se momentos de grande tensão. É meio-dia quando as fragatas Betwa e Beas entram no porto e abrem fogo contra o aviso português, emitindo mensagens em morse a exigir a sua rendição. Em vez disso, e apesar da desvantagem numérica e de uma cadência de tiro de cinco disparos por minuto contra 60 das fragatas indianas, o navio responde. Uma das fragatas é atingida e retira-se, sendo substituída pela terceira.
Após um quarto de hora de trocas de tiros, o Afonso de Albuquerque é atingido, ficando o diretor de tiro ferido. Pelas 12 e 25, uma granada disparada de uma das embarcações inimigas mata o oficial radiotelegrafista e fere gravemente o comandante, António da Cunha Aragão.
A barragem de fogo indiana não cessa. E como o sistema de propulsão do aviso já está danificado, o imediato, Pinto da Cruz, dá ordens para encalhar o navio na praia de Bambolim. São 13 e 10 quando os últimos elementos da guarnição desembarcam na praia, depois de incendiarem o navio. Cinco mortos e 13 feridos foi o balanço de pouco mais de uma hora de combate naval.

No território português não havia força aérea e as parcas tropas terrestres, mal equipadas e armadas (por exemplo, com espingardas Kropatschek, da primeira guerra mundial), contavam como únicos blindados apenas algumas velhas e ferrugentas autometralhadoras e, como apoio naval, apenas um navio de guerra e três lanchas de fiscalização.

O aviso Afonso de Albuquerque, que já sobrevivera à revolta dos marinheiros de 1936, estava equipado com quatro peças de 120 mm, com uma cadência de tiro máxima de cinco disparos por minuto, e tinha ainda duas peças ligeiras de fogo rápido. E cada lancha dispunha de uma peça de 20 mm.

Segundo testemunhos como os de Carlos Alexandre Morais, no seu livro A Queda da Índia Portuguesa (Editorial Estampa, 1995), o sistema de comunicações militares era extremamente débil, suscetível de dificultar a ação e obrigando a fazer boa parte das comunicações operacionais através de estafetas.

Por seu turno, a artilharia compunha-se de umas poucas peças de campanha de 87,6mm, havendo também algumas peças anticarro, se bem que não existissem munições para elas ou que estas estivessem em tão mau estado de conservação que não podiam ser usadas.

Numa entrevista à VISÃO História (conduzida em novembro de 2011), o então capitão Carlos Azeredo confirmou o mau estado, em geral, de todo o tipo de munição. «Não havia propriamente paióis», disse o atual general na reforma. «As munições eram guardadas nuns edifícios sem condições de armazenamento, o que fazia com que a pólvora tivesse ficado húmida durante a monção [que tinha terminado em novembro].» «Premíamos o gatilho, aquilo fazia puff… e o projétil caia-nos aos pés», conta.

Dez anos antes, Carlos Azeredo, que em Goa foi oficial de ligação entre o governador-geral e as forças de segurança, já nos tinha falado sobre a expetativa incontida com naquele dezembro de 1961 o seu chefe, Vassalo e Silva, se atirara a um dos caixotes acabados de chegar via Carachi, num voo da TAIP. E também falou sobre a expressão de deceção a cobrir o rosto do general depois de o abrir e constatar que o Estado-Maior na metrópole respondera literalmente ao pedido de «chouriços» – a palavra que Vassalo e Silva tinha convencionado com Lisboa para cifrar pedidos urgentes de armas e munições antiaéreas e antitanque. «Pedimos ‘chouriços’ e foi o que eles efetivamente mandaram. Assim ficámos a saber que estávamos completamente abandonados, entregues à nossa sorte.»

Foi com esses meios que Salazar quis que o contingente português cerca de 3 500 militares, incluído pouco mais de 800 soldados de recrutamento local, além de 1 040 polícias e 400 guardas-fiscais fizesse frente à poderosa máquina militar indiana que mobilizara um total de 70 mil homens, 45 mil dos quais para marchar sobre Goa, o resto para ficar na retaguarda como reserva.

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