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Em Mormugão ouviram-se as explosões dos bombardeamentos ao aeroporto de Dambolim. A aviação indiana dominava os céus goeses, sem obter resposta. A força Aérea Portuguesa estava ausente. Não havia um único aparelho português no território, muito menos no ar. Nem metralhadoras antiaéreas em terra, porque praticamente eram inexistentes.

Na noite anterior, a bordo do último avião dos Transportes Aéreos da Índia Portuguesa que aterrou em Dambolim, chegara a Goa, rodeado do maior dos secretismos, um pelotão de artilharia antiaérea, que embarcara sob o disfarce de uma equipa de futebol. Era um reforço que havia sido solicitado pelas autoridades militares locais à metrópole para defender o aeroporto. Mas, quando aterraram, a máquina militar indiana já estava em marcha e a instrução que aqueles militares tinham recebido em Portugal fora num tipo de armamento distinto do modelo de metralhadoras antiaéreas obsoletas que encontraram em Goa. E mesmo que tivessem conseguido manejá-las, não possuíam munições.

Como um garrote, o cerco a Goa fora-se apertando lentamente ao longo de todo o mês de dezembro. Logo nos primeiros dias, com concentrações de tropas a serem reportadas junto às fronteiras goesas através de uma rede de informadores infiltrados em território indiano, chegam a Lisboa notícias sobre movimentações e incidentes fronteiriços.

Assim, um telegrama do embaixador português em Carachi, então a capital do Paquistão, alertava a 5 de dezembro o Ministério dos Negócios Estrangeiros para o facto de que os comboios de passageiros a circularem do Punjab e do Uttar Pradesh para Bombaim haviam sido escalados para transportar tropas e material militar (viaturas, blindados ligeiros, artilharia antiaérea) para as imediações de Goa.

As ações junto à fronteira acentuam-se a partir de 15 de dezembro, ao ponto de Lisboa comunicar ao governador, general Vassalo e Silva, que a invasão iria ocorrer nessa noite. Mas, de facto, o tiro de partida da Operação Vijay («vitória» em hindi) seria dado pouquíssimas horas depois do embaixador dos EUA ter expedido o seu telegrama para Washington.

O assalto a Goa foi antecedido, a partir das 22 horas do dia 16, por operações preliminares de patrulhas de reconhecimento que penetraram em território goês pelo Norte e também, no dia seguinte, sábado 17, entrando nas regiões de Sinquervale, Maulinguém e Foquirpató. Seriam provavelmente os «voluntários» que Nehru mencionara a Galbraith. Nesse dia ainda, Vassalo e Silva considerou que chegara a altura de acionar o Plano Sentinela, para a defesa do Estado Português da Índia, o último reduto colonial na península indostânica.

AS HESITAÇÕES DE NEHRU

A reunião entre Galbraith e Nehru da noite de dia 17 foi o culminar de uma sucessão de encontros praticamente diários entre ambos e que, por duas vezes, resultaram no adiamento do dia D.

Adiar mais a execução da ordem de marcha, entregue a 11 de dezembro à 17.ª Divisão de Infantaria, poderia ter efeitos perniciosos no moral das tropas. Nehru estava cansado das ambíguas promessas norte-americanas em torno de eventuais pressões diplomáticas sobre o regime português.

E já tinha esgotado a sua capacidade de resistência às pressões externas e internas para que atuasse. À sua volta havia um coro crescente e ruidoso a reclamar que a incorporação de Goa, Damão e Diu na União Indiana seria impossível sem a intervenção direta das Forças Armadas uma opção que, segundo várias fontes indianas consultadas, desagradava pessoalmente a Nehru.

Para o líder indiano, conta o historiador indo-português Teotónio Rosário de Souza, no seu livro Goa to me (1994), havia uma urgência premente, em grande medida ditada pelas perspetivas do partido no poder (o Congresso Nacional Indiano), nas eleições agendadas para fevereiro de 1962 e, sobretudo, pelo envolvimento diplomático indiano no Movimento dos Países Não-Alinhados.

Na frente interna, Nehru enfrentava as hostes do seu próprio partido, em particular o seu ministro da Defesa, o ambicioso Krishna Menon, ávido de ser eleito deputado do CNI pelo círculo eleitoral de Bombaim. Além deste, no partido havia também uma ala esquerda a fazer pressão para que fosse removido aquilo que, em tempos, o próprio Nehru designara como «uma verruga no território indiano que desfigura o seu belo rosto». Somava-se a isso uma oposição e uma comunicação social bastante assanhada em matéria de anticolonialismo, ambas a acusarem o Governo de fraqueza na política externa: não fazia nada em Goa nem em relação à ocupação, pela China comunista, de Ladakh, território dos Himalaias reclamado por ambas as potências regionais.

E se, no palco das Nações Unidas, as pressões ocidentais, sobretudo norte-americanas e britânicas, iam no sentido de se procurar uma solução negociada, no campo do Terceiro Mundo, em particular no bloco afro-asiático, o assédio não abrandou e a Índia começou a ser questionada, como aconteceu em setembro de 1961, na conferência de Belgrado (uma das que dariam origem ao Movimento dos Não-Alinhados).

Empenhado no combate contra o colonialismo português, o bloco africano dirigia a Nehru ferozes críticas. O líder indiano estaria à espera, comentava-se, que Goa lhe caísse no colo depois de uma derrota portuguesa em África. Reclamava-se que a intervenção indiana facilitaria e reforçaria as lutas independentistas nas colónias portuguesas de África. Ao mesmo tempo, a China maoista fazia os possíveis para minar a liderança indiana no bloco afro-asiático.

A Índia tinha sido a iniciadora da revolução anticolonial, mas a sua militância começava a dar sinais de esmorecimento.

Segundo Teotónio de Souza, Nehru foi impelido a patrocinar, a 20 de outubro desse ano, um seminário sobre o colonialismo português, realizado em Nova Deli. Com isso, «a Operação Vijay tornar-se-ia o inevitável passo seguinte», comenta o historiador indo-português.

«Foi com uma relutância considerável que Nehru deu as ordens», escreveu, por seu turno, K.C. Praval em Indian Army after independence (2009), acrescentando que, na perspetiva do primeiro-ministro, a operação teria de ser fulminante, para impossibilitar os portugueses de pedirem uma intervenção internacional.

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