Não guarde para si. Partilhe!

A Índia marchou a 18 de dezembro de 1961 sobre Goa, Damão e Diu pondo fim a 451 anos de domínio português naqueles territórios. Salazar abandonou as suas tropas, desprovidas de meios para resistir a uma ofensiva numa desproporção de dez para um. Ainda assim, exigiu-lhes o «sacrifício total» ordenando que aguentassem pelo menos uma semana

Já passava das 9 da noite. John Kenneth Galbraith saiu do gabinete do primeiro-ministro indiano, Jawaharlal Nehru, com uma estranha premonição. Os indianos iriam marchar sobre Goa nas próximas horas. Sabia-o. Não que possuísse os dotes de médium ou que o líder indiano lhe tivesse aberto totalmente o jogo quanto às suas intenções. Ao embaixador dos EUA na capital da União Indiana bastava olhar para trás e reconstituir aquele atribulado domingo, 17 de dezembro de 1961.

Logo pela manhã, chegara-lhe a informação de que um chefe da polícia portuguesa em Diu teria sugerido aos indianos uma transferência pacífica de soberania.

Pouco depois, fora informado de que o chefe do Estado-Maior indiano, general Brij Mohan Kaul, partira abruptamente de Deli, sem ter tido tempo para desmarcar um jantar em honra do próprio diplomata norte-americano.

Mas havia outros indícios: durante a tarde, Galbraith assistira a um intenso briefing de propaganda no Ministério dos Negócios Estrangeiros e tomara conhecimento de declarações do vice-presidente da Índia, Sarvepalli Radhakrishnan (um homem que sempre se mostrara avesso à ação armada), segundo as quais estaria iminente uma invasão dos territórios portugueses.

A tudo isso, Galbraith acrescentou como peça fundamental do puzzle o próprio teor da conversa de pouco mais de 60 minutos que acabara de ter com o chefe do governo Indiano.

Na véspera, o secretário de Estado em exercício, George W. Ball (Dean Dusk, titular da pasta, encontrava-se em França numa reunião da NATO) enviara-lhe uma mensagem pedindo que convencesse Nehru a estabelecer uma moratória de seis meses. Em contrapartida, os EUA estariam dispostos a envidar esforços no sentido de se encontrar uma solução negociada. O embaixador deveria igualmente advertir o líder indiano de que «uma invasão de Goa desencadeará uma reação dos EUA que obrigará a administração Kennedy a opor-se à ação indiana na ONU e que dificultará a manutenção do apoio do Congresso à assistência [económica] à Índia».

Durante a reunião, o embaixador reparara que Nehru continuava furioso com a resposta negativa de Salazar a uma proposta que o secretário-geral das Nações Unidas endereçara, dias antes, aos chefes dos governos de Lisboa e Nova Deli. U Thant exortava ambos a assegurarem que a situação não se deteriorasse ao ponto de constituir uma ameaça à paz e à segurança e aconselhava-os a iniciarem negociações com vista à resolução do problema.

Uma vez que cesse a pressão, disse Nehru ao embaixador, os portugueses iriam fazer como já era hábito: ficar sentados e quietos. Então, Galbraith modificou o prazo de seis meses para «tempo suficiente» para convencer os portugueses. Mas em vão.

Nehru manteve-se impassível e questionou-o quanto aos progressos alcançados até à data pela diplomacia dos EUA suscetíveis de fazer Lisboa mudar de opinião. «Usei todos os recursos ao meu alcance para a aceitação da proposta», lamentaria, pelas 23 horas, Galbraith, através da linha telegráfica, «mas, para já, sem êxito».

«Não foi uma má jogada, mas demasiado tardia», admitiu na mensagem enviada ao Departamento de Estado. «No domínio das probabilidades, na semana passada poderia ter funcionado.»

Galbraith perguntara a Nehru se podia comunicar a existência de qualquer hipótese de a Índia ainda recuar. Nehru deu a entender que já havia «voluntários» em marcha e que a desordem interna de Goa estava iminente. «Na prática, disse não haver nenhuma», escreveria pouco depois no seu telegrama. «A minha estimativa é que o farão [atacar], de facto, amanhã de manhã», concluiu o embaixador, desculpando-se por não poder dar melhores notícias.

AS GRALHAS FICARAM EM SILÊNCIO

Goa vivia dias tensos desde o início de dezembro, quando começou a perceber-se que a Índia concentrava tropas junto das suas fronteiras. A população andava ansiosa e ávida da informação, que circulava de boca em boca, dando conta do adensar da situação.

Na manhã de dia 18, muitas famílias tomavam ainda o pequeno-almoço e já não era só a ansiedade a pairar no ar. Enchiam-no os roncos dos jatos da aviação indiana, silenciado o habitual crocitar matinal dos bandos de gralhas ao cruzar o espaço aéreo em voos rasantes sobre os mangais que bordejam as margens dos rios Mandovi e Zuzari.

Pages: 1 2 3 4