Não guarde para si. Partilhe!

Mais do que dois estados, duas burocracias e dois sistemas antagónicos, a Guerra Fria criou no coração da Europa dois géneros de alemães diferentes

O céu está cor de chumbo. Opressivo. Chove nesta tarde de abril de 1981. Um pequeno grupo de rapazes adolescentes vagueia ao longo do Muro de Berlim. Riem-se. A visita de estudo à capital dividida da Alemanha fez escapar estes jovens às casas paternas, e agora andam ali à solta, libertos por algumas horas da vigilância apertada dos professores que acompanham a turma. Paradoxalmente, sentem-se livres na proximidade daquele símbolo da repressão dos povos que vivem além da Cortina de Ferro.

Aqui, no lado ocidental, tocam e brincam com a bizarra construção, uma das mais extensas da Humanidade a par da Muralha da China. Do lado de lá, ninguém pode sequer aproximar-se. Entre Berlim-Leste e o Muro que divide a cidade existe aquilo a que chamam Todesstreifen (a faixa da Morte).

Deste lado pode-se tocar-lhe e até há quem o use para dar largas à imaginação, à criatividade e, por vezes à revolta e à raiva. Os graffiti sobrepõem-se. Obras de arte inspiradas coabitam com medíocres, manifestos políticos ou simples impropérios.

A chuva amaina e converte-se numa espécie de molha-tolos. E quem é que não tem momentos de tolice aos 15 anos? Os rapazes da província põem-se a discutir o que escreveriam no Muro se tivessem um spray de tinta. «[Frank] Zappa for president», sugere um.

Mas os amigos já estão noutra. Agora tentam cuspir para o lado de lá. Os três a quatro metros de altura do Muro não lhes facilitam a tarefa e eles acabam por desistir. Fumam cigarros, dizem disparates.

E lançam-se em corrida para ver quem chega primeiro a uma plataforma de madeira que permite espreitar para a Faixa da Morte e vislumbrar o outro lado de Berlim.

Lá do alto, conseguem ver os soldados do Leste. Gritam-lhes e acenam, mas não obtêm qualquer reação. «Será que nos ouvem?», questiona-se um.

«E se mijássemos?», propõe outro. Entre risos, correm escada abaixo e perfilam-se lado a lado, à frente do Muro.

Mais de oito anos depois, hão-de trocar cartas bem-humoradas, perguntando se aquele ato teria tido alguma coisa que ver com a queda do Muro. Toda a gente sabe que a urina corrói o betão.

Para aquela geração, nascida na Alemanha Ocidental já 20 anos depois da guerra, a divisão é vista como algo de natural. Nas suas vidas, o lado de lá sempre existiu. Para eles, a RDA é outro país, outra realidade, outro mundo. Mais do que estrangeiro, drüben (acolá) sempre foi sinónimo de RDA. Isso foi a rua que lhes ensinou. Na escola falam-lhes de uma Alemanha única, dividida por circunstâncias históricas e pela teimosia de uma Rússia soviética pintada como a má da fita. Há algo de exótico naquilo, mas também de esquizofrénico ao ponto de meter medo.

No ano anterior tinham acolhido na sua turma uma rapariga vinda do Leste. Chegara com os pais, que eram dissidentes. Refugiados políticos, cá. Fugidos à república, do lado de lá. Ela falava a mesma língua, mas a linguagem era outra. As suas dificuldades de integração foram maiores do que as dos verdadeiramente estrangeiros da turma – filhos de imigrantes turcos e portugueses.

No imaginário coletivo a imagem deste Muro sempre teve mais força que a dos  1.378 quilómetros de fronteira interalemã, composta por arame farpado e betão, minas antipessoais, torres de vigia e instalações de disparo automático, que rasgou a Alemanha de norte a sul, do Báltico à Checoslováquia.

 

DESENVOLVIMENTOS SEPARADOS

A construção do Muro, em agosto de 1961, foi só o culminar de um processo de divisão física iniciado em maio de 1952, depois da recusa pelas potências ocidentais de duas propostas soviéticas para unificar a Alemanha, transformando-a num Estado desmilitarizado e neutro.

Estaline ficou irritado e, numa reunião em Moscovo, ordenou aos dirigentes da Alemanha de Leste: «Vocês têm de organizar o vosso próprio Estado.» Era o passo que faltava para consumar a divisão do país. É que três anos antes, a 23 de maio de 1949, na zona controlada pelos EUA, Grã-Bretanha e França, já tinha sido proclamada a República Federal da Alemanha (RFA), enquanto na zona de ocupação soviética nascera, a 7 de outubro do mesmo ano, a República Democrática Alemã (RDA). Além do mais, quando, em março e abril de 1952, Estaline enviou as suas «notas» aos parceiros ocidentais, já as duas Alemanhas haviam iniciado a integração nos respetivos blocos a RFA na Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), e a RDA no Conselho para Assistência Económica Mútua (COMECON).

A divisão aprofundou-se com a integração dos dois estados alemães nas alianças militares ocidental e oriental, respetivamente NATO (criada em 1949) e Pacto de Varsóvia (1955). A linha de demarcação traçada, a partir de 1952, não só dividia um país como dividia o mundo em conceções diferentes. A fronteira entre as duas Alemanhas, com o Muro de Berlim incluído, era apenas uma parte da Cortina de Ferro. Até 1989, nesse segmento da linha que durante mais de 40 anos separou a Europa, morreriam 872 pessoas.

Em 40 anos, a divisória não formou apenas dois estados diferentes. O desenvolvimento separado criou idiossincrasias distintas de um lado e outro da Cortina de Ferro. Geraram-se mesmo dois países, e não simplesmente dois sistemas.

Criaram-se também dois géneros de alemães. A Guerra Fria e a competição desenfreada dos dois sistemas, cada um querendo comprovar a sua superioridade, formaram o caldo de cultura em que se consumou esta divisão.

A história alemã (ocidental) do pós-guerra foi igualmente a história da reconciliação de um povo com o seu passado.

Duas guerras mundiais perdidas e o fantasma de Auschwitz pairaram sobre a sociedade, fazendo com que muitos nascidos logo após a guerra rejeitassem tão pesada herança. Preferiam ver-se como europeus.

O «milagre económico» dos anos 50 e 60, catalisado pelo Plano Marshall e recorrendo a mão-de-obra imigrante, catapultou a Alemanha Federal para o topo dos países industrializados e trouxe, finalmente, um símbolo de identidade nacional de que os alemães ocidentais se orgulharam mais do que da bandeira tricolor: o Deutsche Mark, o marco alemão, a moeda poderosa e estável em que se ancorou o euro. Com o marco, desde que abundasse, podia comprar-se literalmente tudo. Por outro lado, a democracia parlamentar representou uma rutura com o passado autoritário.

No sector Leste, a situação era bem diferente. A maioria dos líderes alemães orientais tinha combatido activamente o regime nazi e haviam-se refugiado na União Soviética. No pós-guerra, foram lestos em sacudir a água do capote em relação a eventuais responsabilidades no conflito. A RDA reclamava ser «a melhor Alemanha», pelo facto de a sua rutura com o passado nazi ter sido mais completa.

Tratava-se, na perspetiva oriental, de uma Alemanha moralmente superior, como descreve a escritora Christa Wolf no romance de 1963 Der geteilte Himmel (o Céu Dividido), em que enaltece a vida na RDA, por ser a mais difícil.

Se bem que a rutura com o nazismo tenha sido profunda, a Alemanha de Leste nunca deixou de ser nacionalista. Por uma questão de convicção, mas também por necessidade de reconhecimento interno e externo, o regime alemão-oriental esforçou-se por forjar uma identidade nacional, promovendo tradições alemãs e figuras históricas como Frederico, o Grande, rei da Prússia. Houve no Leste uma espécie de continuidade cultural daquilo que existiu na Alemanha antes da chegada dos nazis ao poder, o que leva alguns estudiosos a considerar que a Alemanha oriental era a «mais alemã».

LET’S GO WEST

E ali estão agora aqueles cinco adolescentes virados para a divisória de betão, no epicentro geopolítico das rivalidades entre dois blocos antagonistas. Entre eles, Volker é quem melhor conhece o outro lado. Não por ser muito viajado, mas por colecionar selos desde pequeno e manter amizades através de correspondência com jovens da Alemanha de Leste. Era ele a principal fonte de informação do grupo. Afinal, os selos contam a história de um país, apresentam as suas figuras, exibem os seus artistas, monumentos e datas comemorativas. E também havia o que lhe contavam as cartas sobre o dia-a-dia.

«Os tipos passam férias na Hungria da mesma maneira que nós vamos a Espanha ou a Itália», exemplificava. «É o mais próximo do Ocidente que conseguem arranjar.» O regime húngaro era em, muitos aspetos, o mais liberal do bloco de Leste.

Por isso, nos anos 70 e 80 Budapeste surge como uma espécie de Meca para os jovens da RDA. «Lá podem comprar coisas como jeans de marca e discos de bandas que não passam na rádio deles», explica Volker. Na rádio, há quotas: pelo menos 60% da música que se passava tinha de ser local.

Ali perto, à distância de uma pedrada do sítio onde os rapazes estão parados a olhar o Muro, ergue-se um outdoor de dimensões gigantescas. O curioso é que está virado para leste, de forma a que os berlinenses orientais consigam vê-lo do outro lado. É um anúncio à marca de cigarros West, que numa atitude provocatória grita para lá da Cortina de Ferro um «Let’s go West» («Bora para o Ocidente»), com as suas enormes letras pretas sobre fundo vermelho. Sem o saberem, estão no meio de uma batalha de propaganda.

O consumo é um dos campos prediletos da Guerra Fria, tendo-se tornado uma área de competição entre os dois sistemas, cada um tentando demonstrar a sua superioridade em relação ao outro.

A satisfação do consumidor é um dos pilares da prosperidade económica da RFA, uma das bases de aceitação popular do sistema instalado no pós-guerra. A catedral do consumo Kaufhaus des Westens (KDW, Armazém do Ocidente) é a joia que se exibe em Berlim Ocidental para fazer inveja aos orientais.

Contrastando com esta opulência, na Alemanha Oriental vive-se uma carência crónica de bens de consumo que não sejam de primeira necessidade. As pessoas chegam a estar três horas na fila para arrebatar um salame húngaro ou um quilo de laranjas cubanas. Bananas, nem vê-las, quando abundavam no lado ocidental, onde chegam a custar menos do que as maçãs autóctones.

A RDA está integrada no COMECON, que junta os países do bloco socialista, e as importações além das fronteiras do sistema é mais complicada. Dá-se, por isso, primazia à importação de bens de investimento em vez de produtos de consumo menos importantes. O que falta nos supermercados abunda no anedotário. A escassez era motivo de piadas: «Porque é que os alemães orientais não descendem dos macacos? Porque nenhum macaco sobrevive com apenas duas bananas por ano.»

Tudo o que não seja uma necessidade é um luxo e, como tal, raro. Assim acontece também com os televisores ou os carros. Por um automóvel chega a esperar-se dez e mais anos. Em contrapartida, os produtos básicos são escandalosamente baratos.

O governo subsidia os preços e as rendas para a habitação estão congeladas.

O regime tenta compensar esses estrangulamentos. À escassez contrapõe prestações sociais. Seguindo o lema «justiça social com base na igualdade social», o princípio é o de que a ninguém faltem as condições para uma vida digna.

Esse discurso escamoteou, durante muito tempo, os privilégios assegurados à Nomenklatura do Partido (de Unidade Socialista da Alemanha, SED) em termos de acesso a bens e serviços escassos, a repressão política e o condicionamento ideológico no dia-a-dia.

Seja como for, a maioria vê os seus direitos fundamentais garantidos: direito ao trabalho, à habitação, a salário igual por trabalho igual ou à assistência na doença e na velhice.

Da mesma forma que o Ocidente tenta mostrar a sua superioridade na exibição dos bens de consumo, o regime do Leste mostra como troféu as conquistas sociais, ao mesmo tempo que aponta o dedo aos «crimes do capitalismo» na Alemanha Federal: os sem-abrigo, a criminalidade elevada, o desemprego.

Mas é difícil ao regime competir em matéria de propaganda com os canais de televisão ocidentais, dotados de fortes emissores apontados para leste. As imagens que os orientais recebem do único meio de comunicação social que não é controlado pelo seu governo descrevem uma realidade bem diferente da deles. Tão diferente e glamorosa que, em 1989,depois da euforia inicial da queda do Muro de Berlim, muitos alemães de Leste ficaram desiludidos. O tão santificado Ocidente, afinal, não era tão cintilante como tinham pensado.

A televisão é, em ambos os lados, como poderosa ferramenta de propaganda na Guerra Fria.

Os disparates que os cinco rapazes do início desta história fazem na primavera de 1981, ali junto ao Muro, servem meramente para disfarçar o arrepio que sentem subir-lhes ao longo da coluna vertebral. Sabem que estão em plena linha da frente e têm medo. O mesmo medo que uniu durante quase cinco décadas a população das duas Alemanhas. Em ambos os lados acreditava-se que, mais cedo ou mais tarde, os Estados Unidos e a União Soviética iriam defrontar-se com armas nucleares. E o campo de batalha era ali.

(Texto originalmente publicado na revista Visão História, n.º 6, 1 de outubro de 2009. Reeditado em outubro de 2014)