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O líder soviético Nikita Khrushchev desencadeou a crise dos mísseis para reduzir a desvantagem da URSS na corrida às armas nucleares.

Naquela visita à Bulgária, Nikita Sergeyevich Khrushchev andava sorumbático. Os seus mais próximos na delegação estranharam-lhe o comportamento nessa semana de 14 a 20 de Maio de 1962.

As dissensões albanesa e jugoslava, bem como os ameaços de desvios no PC búlgaro que agora, com Todor Zhivkov, a quem tinha vindo dar a bênção, estava em mãos seguras, eram problemas menores. O que atormentava o espírito do líder soviético, nas deslocações num Cadillac descapotável verde, ao lado do camarada Zhivkov, era apenas uma pergunta: o que acontecerá se perdermos Cuba? «Um terrível abalo para o marxismo-leninismo», respondia a si próprio.

Num intervalo do programa oficial, quando se passeava pelo areal da praia de Varna, nesses tempos uma das estâncias balneares preferidas das nomenklaturas dos partidos comunistas da Europa de Leste, juntou-se a ele Rodion Yakovlevich Malinovsky, amigo de longa data e ministro soviético da Defesa. Khrushchev comentou a tranquilidade da região.

– Olhe – interrompeu-o Malinovsky, apontando para o horizonte – do lado de lá do Mar Negro, na Turquia, há mísseis nucleares norte-americanos que, em seis minutos, podem destruir todas as cidades do sul da União Soviética.

  Khrushchev irritou-se com o reparo:

 – Porque é que eles têm essa possibilidade e nós não? Cercaram-nos com as suas bases. Porque não poderemos colocar armas… por exemplo, em Cuba?

– Talvez seja uma boa ideia – respondeu Malinovsky.

 DESEQUILÍBRIO DE FORÇA

cold-war-cuban-missile-crisis-cartoon (1)Por esses dias, o fiel da balança nuclear pendia claramente para o lado dos Estados Unidos. Ao contrário da impressão de ser um jovem fraco que deixara ao líder soviético durante um encontro, em junho de 1961, em Viena, o presidente dos Estados Unidos, John Fitzgerald Kennedy parecia levar a sério a Guerra Fria e nem o falhanço na Baía dos Porcos o demoveu de desestabilizar Cuba.

A supremacia nuclear dos EUA era avassaladora: 172 intercontinentais prontos a serem usados e 144 Polaris em transportados por submarinos. Um ano antes, as agências de espionagem norte-americanas revelaram, pela primeira vez, que o programa de mísseis balísticos intercontinentais (MBIC) dos soviéticos estava muito aquém de estimativas anteriores, que apontavam para 140 a 200 mísseis prontos a usar. Concluira-se que a URSS ficara nitidamente para trás na corrida nuclear. Em Outubro de 1962, os soviéticos contabilizavam apenas 24 MBIC. Mas ao introduzir a variável Cuba na equação, Khrushchev podia diminuir essa desvantagem, duplicando a capacidade soviética de atingir alvos em solo norte-americano. O Kremlin tinha consciência da sua vulnerabilidade e Cuba surgia como oportunidade de acertar as contas.

«O primeiro objetivo foi alcançar equilíbrio de forças vis-à-vis com os EUA», comentará, 30 anos depois, Fedor Burlatsky, conselheiro de Khrushchev, no jornal norte-americano Problems of Communism.

 COMO SE CHEGOU AQUI?

Recue-se no tempo e viaje-se ao dia em que o Movimento 26 de Julho varreu o ditador Fulgencio Batista da cena política cubana – 1 de janeiro de 1959 – para perceber como Cuba entra no filme do terror nuclear numa das fases mais quentes da Guerra Fria.

Pouco se sabe sobre o pensamento político de Castro a essa data. O certo é que, cinco dias depois do triunfo da revolução, a espionagem norte-americana dizia que ele «manifestou frequentemente desejos de amizade para com os Estados Unidos». E que o principal conteúdo do movimento era uma «defesa fortemente emocional da democracia».

Em Abril de 1959, Castro empreendeu uma viagem de charme aos EUA. O presidente Dwight Eisenhower preferiu ir jogar golfe a recebê-lo. Mas o vice-presidente, Richard Nixon, fez as honras da casa. «O encontro foi um desastre», relatará Carlos Franqui, no livro Retrato de Família com Fidel.

Artistas e intelectuais receberam os cubanos em apoteose. O establishment com desconfiança. Castro falava em eleições num horizonte de dois anos. Os cubanos haviam lançado uma reforma agrária que nacionalizou latifúndios. E estavam desejosos de exportar a revolução contra outras ditaduras latino-americanas, apoiadas por Washington.

Ao discurso dos barbudos, a administração Eisenhower respondia com hostilidade. Na opinião do historiador Terrence Cannon, o confronto era inevitável.

«Na manhã em que Batista fugiu, duas forças entraram em conflito: as necessidades do povo cubano e as políticas económicas das empresas norte-americanas a que pertenciam as fábricas e os campos», escreveu em Revolutionary Cuba.

O CAMINHO PARA O SOCIALISMO

Castro teve, desde o início, as rédeas firmemente nas suas mãos. E não queria largá-las, declarando publicamente não permitir que lhe roubassem a revolução. Os comunistas do Partido Socialista Popular não ousaram fazê-lo e remeteram-se a um papel secundário. «Perceberam que a liberdade de que agora gozam ainda depende da boa vontade de Fidel Castro e que passar os limites o levará a reagir contra eles», rezava um relatório da CIA em Dezembro de 1959.

Castro estudara Lenine na prisão, mas não era comunista. À medida que a revolução avançava e a hostilidade dos EUA aumentava, a influência comunista crescia. Primeiro no movimento operário, depois, pela mão de Ernesto «Che» Guevara e de Raul Castro (irmão de Fidel), nas Forças Armadas e no Governo. Foi também por causa dela que se assistiu às primeiras cisões entre revolucionários. De 21 ministros nomeados em Janeiro de 1959, só nove não se demitiram ou foram demitidos até ao final desse ano.

«Porque se aproximaram Castro e os seus homens do modelo soviético?», questiona-se Markus Wolf, o homem que, durante a Guerra Fria, chefiou a espionagem da antiga RDA. Na sua ótica, a revolução cubana pareceu inicialmente querer seguir o seu próprio rumo, mas os EUA não lhe deixaram outra alternativa. «Para os falcões em Washington, qualquer forma de socialismo ou até de social-democracia era um horror, que não podia ser tolerado no quintal do god’s own country e tinha de ser extirpado», escreveu nas suas memórias (Spionagechef im geheimen Krieg). É uma hipótese.

O certo é que só duas semanas após a invasão da Baía dos Porcos (meados de abril de 1961), Castro declara que a revolução cubana «é socialista». As relações formais com Moscovo existiam desde fevereiro de 1960. E fortaleceram-se em proporção da degradação da vizinhança com os EUA que, o mais tardar em Janeiro de 1960, começam a urdir planos para derrubar o regime e matar Fidel Castro. Nem a passagem de testemunho na Casa Branca de Eisenhower para John F. Kennedy desanuvia a relação.

A ‘OPERAÇÃO ANADYR’

De regresso a Moscovo, Khrushchev move as peças no tabuleiro. A Operação Anadyr aumenta a ameaça sobre os Estados Unidos, dissuade-os de invadirem Cuba e obtém um efeito psicológico colocando mísseis no perímetro norte-americano. Projeta-se, assim, a colocação de 24 rampas de lançamento de mísseis de médio alcance e 14 de alcance intermédio, cada uma equipada com dois mísseis, um deles nuclear. Mas também se contemplam forças de combate e baterias de mísseis antiaéreos, entre outros meios.

No início do verão, a CIA anda satisfeita com a Operação Mangusto: infiltrou 11 equipas de guerrilha em Cuba, e as ações de sabotagem contra alvos estratégicos registam um bom andamento. Mas algo perturba o diretor da agência. John McCone diz haver provas circunstanciais de que estão a ser construídas instalações para mísseis ofensivos em Cuba.

Kennedy pede ao Conselho Nacional de Segurança (CNS) para analisar a questão. E dá instruções para averiguar a possibilidade de retirar os mísseis da Turquia. Com as eleições para o Congresso previstas para o Outono, o presidente é pressionado para atacar Cuba. O Comando Táctico Aéreo desenvolve os planos correspondentes.

MÍSSEIS APONTADOS

Os primeiros mísseis chegam a Cuba em setembro. Mas será só na manhã de 16 de outubro que Kennedy recebe uma confirmação inabalável. São 8 e 45, quando McGeorge Bundy, seu assessor para a segurança, lhe leva fotografias que não deixam margem para dúvidas: Chicago, Los Angeles e Nova Iorque estão ao alcance dos mísseis soviéticos. Nos dias seguintes, intensificam-se as reuniões de Kennedy com a Comissão Executiva do CNS (ExComm). Esse grupo de conselheiros do presidente divide-se entre os que favorecem um ataque aéreo de surpresa para aniquilar a ameaça e os partidários do bloqueio marítimo a Cuba.

O terceiro dia da crise, 18, é particularmente intenso. Entre as reuniões da ExComm, Kennedy recebe a visita, há muito agendada, do ministro soviético dos Negócios Estrangeiros. Não se fala sobre Cuba para que os soviéticos pensem que Kennedy ainda não sabe de nada. Andrei Gromiko reitera-lhe a exigência soviética de desmilitarização de Berlim Ocidental. Isso reforça a sua convicção de que o cerne desta crise não é Cuba. É Berlim. Se cedesse em Cuba, pensava, Moscovo avançaria sobre Berlim Ocidental. Aliás, Khrushchev ameaçara várias vezes «normalizar a situação». Cuba seria apenas um ensaio para uma demonstração de forças na cidade alemã.ARK

DE DEDO NO BOTÃO

O presidente estava num dilema: prometera proteger os berlinenses do sector ocidental. Mas, se os soviéticos avançassem, não teria meios para o fazer. A não ser, lançar um ataque nuclear contra a URSS. Entretanto, as chefias militares confirmam que um ataque aéreo não garante a destruição de todos os mísseis soviéticos em Cuba. E, no dia 20, decide-se o bloqueio. A hipótese de ataque mantém-se em cima da mesa, para o caso de Khrushchev não ceder. A 22, a crise torna-se pública. Kennedy anuncia na televisão que os soviéticos instalaram mísseis em Cuba, decretando para dia 24 o início da «quarentena marítima» (subtileza diplomática, já que um «bloqueio» é um acto de guerra) à ilha. Exige ainda a Khrushchev que retire os mísseis de Cuba. E ameaça que, se os EUA forem alvo de um ataque, retaliarão, com armas nucleares. O mundo sustém a respiração.

O bloqueio isola Cuba. Mas os soviéticos continuam a montar mísseis na ilha. A 26, Kennedy recebe uma carta de Khrushchev a garantir que os retirará, se os EUA abdicarem das intenções de invadirem Cuba. No mesmo dia, também o líder soviético recebe uma carta. É de Fidel Castro e adverte para a iminência de uma invasão norte-americana. O líder cubano expressa a opinião de que, se tal acontecer, a URSS ficará vulnerável a um primeiro ataque nuclear. Por isso, a invasão de Cuba seria o «momento para eliminar esse perigo para sempre, através de um ato de clara legítima defesa».

Khrushchev viu na carta um apelo para os soviéticos desencadearem um primeiro ataque nuclear. O dia 27 ficaria conhecido como «sábado negro», devido a incidentes que quase precipitam o mundo para a catástrofe. Entre esses, houve o caso de um avião-espião norte-americano abatido sobre Cuba. O piloto morreu, mas Kennedy proibiu qualquer retaliação. No mar, onde as dezenas de navios soviéticos, escoltados por submarinos nucleares, são impedidos de se aproximarem da ilha, também se vivem momentos de grande tensão.

Noutra carta, Khrushchev associa a retirada dos mísseis soviéticos não só à não-invasão, mas também à saída dos mísseis norte-americanos da Turquia. Os dois líderes acabam por recorrer à diplomacia secreta. Ao cair da noite, e à revelia do ExComm, Kennedy envia o seu irmão mais novo e ministro da Justiça, Robert, ao embaixador soviético em Washington, Anatoly Dobrynin, com um recado: os mísseis americanos sairão da Turquia. No dia seguinte, Khrushchev anuncia que retira os mísseis de Cuba.

Em Havana, o regime ficou consternado. Seguiu-se uma troca amarga de missivas entre Castro e o líder soviético. Sem ter sido tido nem achado no diálogo das grandes potências, Castro sentiu-se atingido no seu orgulho e prestígio.

RELAÇÃO ARREFECE

O relacionamento Havana-Moscovo arrefeceu. O líder cubano aproximou-se da China comunista, explorando a crescente disputa entre Moscovo e Pequim. As relações com Moscovo só recuperariam, em Agosto de 1968, quando Castro reiterou publicamente o seu apoio à invasão soviética da Checoslováquia. Minadas foram também as relações internas no regime cubano. Em 1965, o «Che» fez críticas aos erros da revolução. Renunciou à cidadania cubana e aos cargos no governo para prosseguir a luta armada na América Latina. Assiste-se também a uma fase de quase namoro entre Castro e Kennedy, com recados enviados através de jornalistas. Kennedy rejeitara um plano do Pentágono, a Operação Northwoods, que visava criar justificações para uma invasão de Cuba, incluindo atentados terroristas contra civis nos EUA que seriam atribuídos a Havana.E, a 17 de Novembro de 1963, diz estar preparado para negociar a suspensão do embargo e a normalização das relações com Cuba. Mas cinco dias depois é assassinado. Também para Khrushchev haveria consequências. Em Outubro de 1964, estava de férias em Pitsunda, na Abkházia. Enquanto contemplava o Mar Negro já sem a ameaça dos mísseis na Turquia, no Kremlin um grupo liderado por Leonid Brezhnev conspirava para o destituir. Em Moscovo, a linha dura do aparelho soviético, que não lhe perdoara a desestalinização, viu na retirada dos mísseis de Cuba uma humilhação para a URSS e uma vitória para o Ocidente.

Informação complementar
CIA conspirou para matar Fidel
Fracasso na Baía dos Porcos

(Texto originalmente publicado na revista Visão História, n.º3, de 1 de dezembro de 2008. Reeditado em setembro de 2014)