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Num ano decisivo da Segunda Guerra Mundial, 1942, os alemães infiltraram os seus agentes na frota bacalhoeira portuguesa. Os lugres nacionais estiveram até sob a suspeita de terem abastecido em pleno Atlântico os submarinos nazis.

Naqueles dias chuvosos da Primavera de 1942 que antecederam a largada da frota bacalhoeira, a 10 de Maio, Ernst Schmidt quase rebentava de contentamento quando  entrava na sala de bilhar do Café Chave d’Ouro – um estabelecimento requintado da Baixa lisboeta muito frequentado por alemães e germanófilos. Praticamente paredes-meias havia o Nicola, poiso dos anglófilos.

Os navios estavam prestes a partir e o chefe, em Lisboa, de uma das redes de espionagem naval alemã, tinha conseguido um golpe de mestre: infiltrar um espião seu no navio mãe daquela frota, o Gil Eanes, o único que já havia partido.

Nesse ano decisivo para o desfecho da Segunda Guerra Mundial, a guerra secreta intensificar-se-ia bastante em Portugal – aliás, Lisboa, convertera-se no principal centro europeu de espionagem. O fenómeno atravessou praticamente toda a sociedade, centenas ou mesmo milhares de portugueses terão trabalhado para um ou outro lado do conflito. Não raras vezes para ambos, dando informações em troca de algum dinheiro.

A frota bacalhoeira não podia escapar à regra por se revelar  mesmo uma peça crucial no jogo de sombras das potências beligerantes, em especial da Alemanha nacional-socialista. E isso tinha uma razão simples: os bancos de pesca do Noroeste do Atlântico frequentados pela frota portuguesa situavam-se precisamente nas principais rotas do tráfego marítimo entre a América do Norte e a Europa. Ou seja, nos locais por onde passavam os comboios navais aliados que abasteciam a Grã-Bretanha, onde se começavam a concentrar as tropas aliadas com vista a uma invasão do continente europeu, e a Rússia, que há dois anos tentava obstruir ao avanço nazi em direção ao petróleo do Cáucaso.

Os navios da pesca do bacalhau movimentavam-se, portanto, no sítio ideal para observar e reportar o tráfego naval aliado. A neutralidade portuguesa fornecia o melhor disfarce para a acção dos agentes do Eixo. E o Gil Eanes em particular proporcionava cobertura diplomática, já que se tratava de um navio de bandeira.

A documentação secreta consultada mostra que só, entre maio e agosto de 1942, os serviços de informações britânicos reportaram pelo menos cinco casos altamente suspeitos por parte da frota portuguesa. Ainda antes do final da campanha, em outubro, o comportamento das embarcações lusas suscitou as piores desconfianças aos investigadores da contra-espionagem britânica, que interceptando praticamente todas as comunicações radiotelegráficas dos nazis (sem estes saberem, claro) recolheram indícios desconcertantes: dos 47 navios, que largaram com pompa e direito a cerimónia pública em maio daquele ano,  uma dúzia transportava agentes nazis a bordo. Quer dizer, suspeitava-se que um em cada quatro navios levava pelo menos um espião alemão a bordo.

Mas essa não foi a única preocupação que os aliados mantinham em relação à frota portuguesa, num ano em que a campanha submarina germânica no Atlântico esteve quase a por a Grã-Bretanha de joelhos. Em Londres acreditava-se que os bacalhoeiros portugueses abasteciam os submersíveis alemães com combustível que iam buscar a portos aliados, nomeadamente no Canadá e na Terra Nova. Contudo da intensa troca de correspondência entre o almirantado britânico, os serviços de segurança dos portos do Atlântico ocidental e a contra espionagem aliada, depreende-se que nunca foi possível provar essa suspeita, muito embora se tenha admitido que um ou outro capitão germanófilo possa ter fornecido víveres aos submarinos nazis.

As suspeitas nunca se provaram por várias razões. A mais óbvia: em alguns casos, eram infundadas. Outra tem a ver com a forma como a informação era obtida. Os relatórios britânicos da época falam numa most secret source, uma fonte de informação tão secreta que só um núcleo muito reduzido a não muito mais que uma dezena de pessoas de pessoas tinha conhecimento dela (nem o primeiro-ministro Churchill terá sabido ao certo do que se tratava). Na verdade não era mais do que a interceção e decifração das comunicações alemãs. Os britânicos tinham conseguido quebrar os códigos alemães, em 1940, devassando-lhes praticamente todas as comunicações. E foi-lhes possível manter esse segredo praticamente até ao fim da guerra. Era uma fonte valiosa e os britânicos preferiam deixar escapar um espião ou não mexer num assunto a revelá-la. Apresentar uma prova teria muitas vezes de passar por aí. Não se podendo obtê-la de outra forma, era preferível fingir que não se sabia de nada. Outra das razões era a de simplesmente se pararem certas investigações para não levantar ondas ao nível diplomático que pudessem pôr em causa o acordo secreto que os britânicos tinham fechado com o regime português, no sentido de os próprios navios britânicos se abastecerem nos Açores e em Cabo Verde.

Com provas ou sem elas, o certo é que os alemães usaram e abusaram da frota portuguesa. Durante os interrogatórios a que foi sujeito, no pós-guerra, no processo de Nürenberg, Walter Schellenberg, o último chefe da espionagem de Hitler, disse que navios de pesca portugueses terão sido usados para desembarcar espiões no continente americano.

Um dos casos de sucesso dos alemães foi a contratação do chefe radiotelegrafista do navio Gil Eannes para as suas hostes. Esse navio gozava no Oceano de uma liberdade quase absoluta, fazendo vaivém entre os lugres, que abastecia e apoiava com cuidados médicos, e escala em portos numa extensão que ia da Virgínia, no Sul dos EUA, ao Círculo Polar Árctico. Era o que mais viagens fazia.

Gastão Crawford de Freitas Ferraz, o radiotelegrafista, embarcou naquela primavera, no Gil Eannes. Schmidt contratara-o para que ele transmitisse informações sobre o que via nos portos aliados onde o seu navio arribava, sobre os movimentos navais dos aliados (o número e o tipo de embarcações avistadas; tratava-se de navios de guerra ou mercantes?; transportavam tropas?; levavam aviões?), bem como o estado do tempo. Por tudo isso recebia 1 500 escudos por mês, mais do que o seu vencimento base como telegrafista do navio.

Os ingleses intercetaram-lhe as comunicações com os alemães, logo em junho desse ano. Só meses depois, em outubro, é que o Gil Eannes foi mandado parar em alto mar. Ferraz seria retirado do navio e enviado para Inglaterra onde esteve até ao fim do conflito. Ferraz só não foi condenado à morte por espionagem contra os britânicos porque a única prova que podiam apresentar contra ele era os seu próprio depoimento, insuficiente para o condenar. A prova mais fiável, não podia ser revelada.

Este caso atingiu a cúpula do regime, uma vez que fora Henrique Tenreiro, o representante do Governo no Grémio dos Armadores dos Navios de Pesca do Bacalhau e um dos homens mais influentes do regime, que era um espécie de ministro putativo das pescas, a contratá-lo, no final de fevereiro, para o cargo de primeiro ratiotelegrafista do Gil Eanes.

Na sequência deste, o próprio Tenreiro foi investigado, em Portugal, pelos serviços de contra-espionagem britânica em– a secção V do MI6. Tido como um indivíduo germanófilo, não há, porém, provas cabais que possam relacionar Tenreiro diretamente com os serviços secretos alemães. Mas, segundo diz Álvaro Garrido, o historiador e biógrafo de Tenreiro, «existem indícios fortes de que prestou serviços ao Estado nazi e ao esforço de guerra alemão».

Com efeito, este oficial da Armada e também ajudante de campo do ministro da Marinha (o seu concunhado, Ortins de Bettencourt, era também ele germanófilo) era conotado com a ala radical do regime, já tinha sido condecorado pelo Reich e parece ter dado cobertura a vários casos de espionagem a bordo dos bacalhoeiros. Na sua posição de «patrão das pescas», que tinha oficiosamente a última palavra a dizer na contratação dos oficiais das embarcações pesqueiras, Tenreiro dificilmente terá ignorado o que se passava.

Este, entre alguns outros casos de cidadãos portugueses envolvidos em espionagem para o Eixo, fundamentou um extenso dossier entregue pelo governo britânico a Salazar sobre a actividade das redes de espionagem alemãs em Portugal. Em 1943, o ditador lá cedeu às pressões britânicas para ilegalizar a espionagem contra terceiros (neste caso os aliados) e para desmantelar as redes germânicas. Acabaram, assim, os anos de impunidade. Muitos portugueses que colaboravam com os alemães foram presos e vários alemães receberam ordem de expulsão do país, entre eles Ernst Schmidt, residente no país desde a década de 20 e casado com uma portuguesa. Depositadas na Torre do Tombo encontram-se missivas enviadas pelos representantes do Governo britânico ao Presidente do Conselho, em que se pode ler que não há notícias de ele ter saído do País. Talvez ainda nos possamos cruzar com ele, com outra identidade, numa sala de bilhar da Baixa lisboeta.

(Texto originalmente publicado no Diário de Lisboa, n.º 23 423 (Publicação anual gratuita), de 30 de junho de 2011)